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Dificuldades do advogado em gerir o departamento jurídico - Por Roberta Codignoto

goo.gl/MpzbAq | Foram ao menos 5 anos entre leis, jurisprudências, peças processuais e muitas teses doutrinárias, além de anos de prática jurídica como advogada. Mas estes conteúdos e experiências, por si sós, não eram suficientes para a gestão de um departamento jurídico, e este foi um dos primeiros aprendizados da minha carreira dentro do mundo jurídico corporativo.

Muitas são as dificuldades que o advogado enfrenta ao se deparar com a gestão de um departamento jurídico e é preciso buscar reforço do que não foi ensinado no curso de Direito. Este curso, como muito já se discute, não forma um profissional liberal, uma vez que sequer o ensina a administrar seu próprio escritório. Como o ensinaria a gerir algo?

Uma das primeiras dificuldades que o gestor encontra é o propósito de sua atuação. Deixa-se de ser o advogado litigante, processador, que busca justiça. Como gestor, passa a analisar cada questão buscando o melhor custo-benefício para o negócio, no tempo certo. Muitas vezes, evita-se o conflito a qualquer custo, uma vez que ele é caro e demorado, e nem sempre efetivo.

E, para que entenda o seu propósito dentro da empresa, ele precisa conhecer do negócio profundamente.  O profissional deve ter uma visão global da empresa, compreendendo a estrutura, o segmento de mercado, os concorrentes, missão, visão, valores, tudo enfim.  Um bom treinamento de integração é recomendado para que se possa transitar entre as áreas e conhecer o negócio.  Além disto, o gestor jurídico deve participar efetivamente do dia a dia da empresa, aliando as atividades do jurídico interno com os demais departamentos e áreas de negócio.

Neste processo de conhecimento e de integração, surge outra dificuldade: a comunicação.  Percebe-se que não é tão simples se comunicar com os pares, profissionais de outras áreas, e que, muitas vezes, a mensagem não é compreendida da forma como se pretendia. Isto ocorre porque, como profissionais do direito, acreditamos que nos comunicamos perfeitamente, uma vez que temos o dom da oratória, que redigimos como nenhum outro mortal.  No entanto, dentro do ambiente corporativo, o processo de comunicação é outro. Desde a linguagem verbal e escrita (famoso “juridiquês”), até mesmo a linguagem corporal (terno e gravata), podem ser mal compreendidos num ambiente corporativo mais informal. A comunicação dentro das empresas tende a ser mais concisa e rápida, mais simples e efetiva, uma vez que o bom hoje pode ser muito melhor que o perfeito amanhã. A velocidade de decisão exige informação no tempo certo, e o advogado que estava acostumado a escrever laudas e laudas, passa a ter que escrever um e-mail de poucas linhas, ou reduzir um grande parecer de um escritório externo em uma página, ou até mesmo em um gráfico ou uma apresentação de slides.

Existem várias ferramentas que podem auxiliar neste processo de melhoria da comunicação, além de sempre ser possível (e recomendável) um alinhamento de expectativas com as demais áreas do negócio, com uma pergunta prática de “como você gostaria de receber esta informação?”. Parece uma ferramenta simples, mas é muito eficaz. (Eu usaria: pode parecer uma ferramenta…)

E o mencionado alinhamento de expectativas, também consiste num método eficiente para a gestão de equipes, que é justamente uma das dificuldades encontrada pelo advogado gestor de departamento jurídico.

Como gestor, sua responsabilidade será contratar, gerir, treinar e desenvolver pessoas para o seu departamento. E, novamente, estas competências não foram desenvolvidas no curso de Direito.

A Administração, mais uma vez, vem suprir esta carência do advogado, com inúmeras ferramentas que podem auxiliar nesta tarefa.  Muitos gestores têm dificuldades, por exemplo, de dar feedback (e de receber também). Na gestão de equipes também surgirão algumas dificuldades com os processos de mapeamento de competências, avaliação de desempenho e definição de objetivos. No entanto, é possível desenvolver estas habilidades, estudando e exercitando, tomando notas do comportamento de sua equipe, chamando-a para conversas no decorrer do mês, para que não se percam apontamentos sobre fatos importantes que devem ser discutidos ou que devam nortear as avaliações de desempenho.

Estar alinhado com os objetivos gerais da empresa e compreender profundamente os objetivos de outras áreas, também auxiliará o gestor na elaboração dos objetivos do seu time e do seu departamento, uma vez que eles deverão ser suplementares aos do negócio.

E para a gestão do seu departamento, será preciso um orçamento e conhecimento de finanças, o que também não foi ensinado no nosso velho curso de Direito. O gestor tem que desenvolver e controlar o seu orçamento, o que é uma tarefa bem difícil, ainda mais em épocas nas quais as empresas estão revendo custos a todo momento. Deve-se avaliar exatamente o que será necessário para gerir a área, contando muitas vezes, com um cenário hipotético, uma vez que não se controla o contencioso das empresas. Conhecer do negócio será fundamental nesta tarefa, mas conhecimentos de finanças e KPI’s (key performance indicator, ou indicadores chave de desempenho) são bem relevantes. É preciso medir a atividade do jurídico para demonstrar os resultados que a área está trazendo para a empresa, como forma de defender os investimentos em pessoas, processos, etc.

Além disto, na gestão do contencioso, todas estas ferramentas serão úteis uma vez que, além de mapear as áreas do negócio que são os maiores demandantes do jurídico, também é preciso compreensão de finanças para melhor negociação com os escritórios externos e, consequentemente, o mapeamento do resultado para o negócio.

Assim, é possível buscar em vários conceitos da Administração, ferramentas que ajudem no preparo e no desenvolvimento do advogado, na missão de assumir, desenvolver ou melhorar um departamento jurídico. Em suma, a administração é fundamental para que o profissional do direito possa gerir um departamento jurídico, trazendo resultados efetivos para o negócio.

Por Roberta Codignoto - Vice-presidente da ABD&A
Fonte: www.jota.info

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