Consumidor que ficar sem água por conta de vazamento pode pedir reembolso

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goo.gl/tJdeLy | Por causa do rompimento do cano, o fornecimento de água foi interrompido nesta sexta-feira (19) em dez bairros de Salvador. Segundo a Embasa, o reparo terminou por volta das 13h30, quando o fornecimento foi restabelecido. No entanto, o serviço só estará totalmente normalizado no final da manhã deste sábado (20).

Para quem mora em um dos dez bairros afetados e teve que conviver com a falta de água, saiba que é possível solicitar um ressarcimento ao responsável pela interrupção. É o que explica o chefe da Superintendência de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), Filipe Vieira.

No caso da Embasa, empresa ligada ao governo do estado, o recomendado é pedir o abatimento na conta pelo dia em que o serviço foi interrompido.

Ainda conforme Vieira, auxílios e informações são fornecidos através do aplicativo Procon Ba Mobile ou em um dos balcões do Procon. Quem quiser denunciar ou prestar informações sobre o fato pode usar o app ou o e-mail denuncia.procom@sjdhds.ba.gov.br.

O representante do Procon dá outro alerta, que vale, desde já, para os moradores das regiões atingidas - Ribeira, Caminho de Areia, Uruguai, Mares, Jardim Cruzeiro, Vila Ruy Barbosa, Massaranduba, Boa Viagem, parte da Calçada e parte do Lobato: “É importante que o consumidor fique atento ao registro de consumo em seu relógio de água para evitar que a retomada do fornecimento faça uma pressão maior, suficiente para o relógio gire mais rápido. Na hora que falta água, a pressão diminui e o relógio roda devagar. Quando religa, a pressão faz com que o relógio gire sem que, necessariamente, o consumo tenha aumentado”.

Já as sete famílias, pelo menos, que tiveram prejuízos com o rompimento do cano, na Vila Ruy Barbosa, terão que ser indenizadas pela Embasa. Caso a obra fosse de terceiros, o responsável pelo pagamento - tanto da obra como de possíveis danos a outros bairros - seria o dono da obra, diz o Procon.

Em nota, a Embasa disse que “está dando a assistência necessária aos moradores dos imóveis atingidos por inundação causada pelo vazamento e vai reparar os possíveis danos resultantes do incidente”.

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'Explosão', susto e prejuízo na Vila Ruy Barbosa

Cristiane demora de atender à porta. “Eu tava dormindo”, diz, com semblante cansado. Nesta sexta-feira (19), ela acordou assustada à 1h com um barulho forte, como uma explosão. Ao levantar, se deparou com água dentro do quarto, na altura dos joelhos. “Estava deitada com meu filho”, lembra. Cristiane Santos, 37 anos, mora na Rua das Nações Unidas, na Vila Ruy Barbosa, no Jardim Cruzeiro, onde um cano da rede de abastecimento estourou, fazendo a água invadir sete casas - incluindo a dela.

Quatro residências foram mais prejudicadas: as de Cristiane, de dona Francisca e de dona Maria Helena, que ficam abaixo do nível da rua, e a de Milena, bem em frente ao buraco. A cratera que se abriu no asfalto após o rompimento de um cano da Embasa, ligada ao governo do estado, tinha cinco metros de largura e 50 cm de profundidade.

Quando o CORREIO chegou ao local, na mesma manhã, a sala da casa de Cristiane era ocupada apenas por umas caixas de papelão no chão, um saco plástico cheio de sapatos e muita lama. “Perdi um armário, uma cama, a geladeira e o fogão. Por enquanto”, diz quando perguntada sobre o prejuízo. Às 4h30, Cristiane andou por 15 minutos para levar o filho, Mateus Vinícius, 4, à casa da avó.

O marido de Cristiane, o segurança Marcos Vinícius, tirou água de casa com um balde até as 6h desta sexta. “Depois, foi para o trabalho”, conta.

Segundo moradores, este não é o primeiro vazamento na rua - outro ocorreu há três anos, mas em menor proporção. Questionada, a Embasa não respondeu sobre o problema anterior.

“Eu nunca achei que ia acontecer uma coisa assim. Tô sentindo muita dor. Só pensava em meu filho, fiquei com medo de ele pegar leptospirose ou outra doença na água”, conta a dona de casa.

Sufoco

Procurada, a Embasa disse não saber ainda especificar o que causou o rompimento. Mas arrisca: “A princípio, os técnicos acreditam que a movimentação do terreno, acentuada pelo tráfego de veículos no local, aliada à elevada pressão da água no período noturno podem ter causado alguma fissura na tubulação, resultando em rompimento”, diz, em nota.

Não bastassem os problemas na rua, o rompimento ainda suspendeu o fornecimento de água em dez bairros de Salvador.

Apesar de a Embasa ter informado que o reparo terminou por volta das 13h30 desta sexta, às 16h ainda não tinha água no local. “Tá sem água agora pra lavar a lama de dentro de casa”, diz o montador de móveis João Barbosa, 52, que gravou um vídeo mostrando como foi a situação logo após o incidente.

“Fiquei com muito medo, tava sozinho com minha irmã, ela ficou nervosa. Eu não sabia se ligava pros meus parentes, se corria pra salvar os idosos ou se ligava para a Embasa”, lembra. A geladeira caiu quando a água invadiu a cozinha, chegando a um metro.

A primeira reação de João foi tirar a irmã de casa. “Coloquei ela numa cadeira na calçada com os vizinhos, pra ela ficar protegida”, diz. “Me botaram lá fora para eu não ficar nadando aqui”, conta a aposentada, que mora no local há cerca de 20 anos. A casa, que fica abaixo do nível da rua, foi uma das mais atingidas.

“Bati nas portas dos vizinhos, chamando e gritando socorro - muitos estavam dormindo e não viram a água subindo e entrando”, conta João.

Ele diz que ligou “várias vezes” para a Embasa, que só chegou ao local às 3h. Foi quando o fornecimento foi interrompido. Segundo os moradores, a empresa retornou ao local às 10h com equipamentos para retirar a água das casas.

As roupas ainda estavam úmidas e os guarda-roupas e armários com portas inchadas, gavetas quebradas e cheios de lama. A carteira de trabalho de João ficou molhada e ilegível. “A gente perdeu muita comida, a geladeira toda teve que ser esvaziada, jogamos tudo fora”, lamenta.

Perdas

A assistente financeira Milena Assis Torres, 30, tirou as tomadas dos aparelhos eletrônicos assim que viu a água no quarto. “Me senti lesada, eu pago meus impostos pra ter uma vida digna. Falta manutenção correta dos canos e ainda não deram nenhuma explicação pra gente”, reclama.

Milena mora em casa com o pai, Dilton Torres, 72, que foi acordado com o barulho do cano estourando. “Ele tem pressão alta e asma, passou mal com o susto”. Ela levou o pai para a casa de uma tia, no bairro da Graça.

A mãe de Milena, Deronildes Assis da Silva, 54, mora a duas ruas de distância e correu para socorrer a filha. “Meus braços estão doendo de tanto puxar água. E ainda levei bronca da minha chefe porque faltei ao trabalho”, conta a auxiliar administrativa, que só conseguiu tirar toda a água da casa às 14h. Milena perdeu o sofá, uma cômoda, o rack e o armário do banheiro.

Na casa de Maria Helena Cardoso de Jesus, 69, funcionários da Embasa precisaram fazer um buraco num batente para escoar a água. “Tudo faz parte da vida. Lutei, trabalhei, batalhei para ter minhas coisas, para ver assim...”, conta. Ela estima ter perdido cerca de R$ 200 mil só em móveis, comprados há seis meses.

Maria Helena foi uma das vizinhas que acordaram com as batidas na porta de João. “Estou muito abalada. Entrei em pânico, tremi e chorei muito. Não falei nem gritei nada. Me tiraram de dentro de casa, porque eu entrei em choque”, diz. Maria Helena mora na casa há 35 anos com a filha, a assistente social Cristineide de Jesus, e o marido, que está viajando para cuidar de negócios da família.

Para a conta do prejuízo entram três portas instaladas recentemente, a cama, cortinas e os armários com roupas, sapatos e documentos, ainda arrumados, mas molhados e sujos de lama. A “filha adotiva” de Maria Helena, como ela se refere, a advogada Maria Angélica Cedro, 66, conta que vai lutar contra a Embasa na Justiça. O órgão afirmou que vai reparar os possíveis danos.

*Colaboraram Júlia Vigné e Caio Issa, integrantes da 12ª turma do Correio de Futuro, com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

Por Raquel Saraiva e Júlia Vigné
Fonte: www.correio24horas.com.br

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