Juiz ouve nesta quarta-feira produtor da banda que tocou na boate Kiss durante o incêndio

http://goo.gl/rA9viC | A etapa de interrogatórios dentro do processo da tragédia na boate Kiss em 2013, em Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul, entra no segundo dia nesta quarta-feira (25). A partir das 13h30, o produtor de palco da banda Gurizada Fandangueira, que tocava na noite do incêndio que deixou 242 mortos e mais de 600 feridos, será questionado pelo juiz Ulysses Fonseca Louzada.

Luciano Bonilha Leão teria acendido o sinalizador que inciou o fogo. Antes dele, o ex-vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, foi interrogado na terça (24). Foi ele que usou o artefato na noite de 27 de janeiro, há dois anos.

Em um dos questionamentos, Marcelo observou que a ideia do uso do artefato durante as apresentações da banda Gurizada Fandagueira foi do gaiteiro Danilo Jacques, que morreu na tragédia. Acrescentou que a prática começou em 2009.

Nesse primeiro dia de depoimento, Luciano foi ao Tribunal em Santa Maria, assim como um dos sócios da boate Mauro Hoffmann, que também será interrogado. O juiz, porém, decidiu pela retirada deles da sessão por se tratarem de réus que ainda não falaram.

"O réu que não foi interrogado pode o depoimento dele ser conflitante e, quando ele prestar depoimento, ele vai ter uma vantagem em cima daquele que prestou depoimento. É o que eu quero evitar", explicou Louzada.

Quatro réus

Os sócios da boate, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, serão ouvidos no começo de dezembro. Os quatro são acusados de homicídio e tentativas de homicídio com dolo eventual. Eles chegaram a ser presos nos dias seguintes ao incêndio, mas desde o fim de maio de 2013 respondem ao processo em liberdade.

O grupo Gurizada Fandangueira se apresentava na boate Kiss, no dia 27 de janeiro de 2013, quando o vocalista usou um artefato pirotécnico, que provocou um incêndio na casa noturna. As chamas se alastram pelo forro e espalharam uma fumaça tóxica no ambiente. Como resultado, 242 pessoas morreram e mais de 600 ficaram feridas.

O interrogatório do vocalista Marcelo durou cerca de 2h15. Santos concordou em responder os questionamentos do juiz Ulysses Fonseca Louzada, responsável pelo caso, e da acusação. Havia a possibilidade dele não responder, como prevê a Constituição. Em um dos questionamentos, ele observou que a ideia do uso do artefato durante as apresentações da banda Gurizada Fandagueira foi do gaiteiro Danilo Jacques, que morreu durante a tragédia.

“Começou com o Danilo, e o sogro dele fazia isso, bem antes da tragédia. Umas vezes a gente fazia, outras vezes não fazia. Não era aquela coisa corriqueira”, afirmou o vocalista, acrescentando que a banda começou a usar fogos de artifício em 2009.

Questionado pelo juiz se alguma vez tinha observado as instruções do produto para uso do artefato, ele negou. Disse ainda que o sócio da boate, Elissandro Spohr, o Kiko, tinha conhecimento do uso do material dentro da casa noturna. “Kiko nunca falava nada do uso do material”.

Em relação às chamas, o vocalista disse que foi avisado do fogo por seu irmão. “Ele me tocou com a baqueta e olhei para ele e perguntei ‘o que houve?’ Olhei para cima e vi chama no forro.” Em seguida, relatou ao juiz que olhou para os lados e gritou: “Fogo, fogo, fogo, sai, sai”.

Sobre os momentos seguintes ao início das chamas, Marcelo relatou que um rapaz alcançou a ele um extintor de incêndio, que não funcionou. Também percebeu que alguém jogou água nas chamas, para tentar controlar o fogo, sem sucesso.

Em seguida, conforme o relato, o vocalista olhou para pista de dança e constatou que “não tinha mais ninguém, todos correram para a porta”. Marcelos do Santos explicou que foi neste momento que tentou sair da casa noturna. No caminho para a porta, passou mal e desmaiou, no canto do palco.

“Conseguiu ver a porta?”, perguntou o juiz. “Não tinha visão perfeita, já estava baixando fumaça, não sei o que acontece com essa fumaça. Quando descia do palco, senti perder a respiração”, respondeu o vocalista.

O juiz também o indagou se ele teria tomado o microfone para avisar as pessoas para saírem da casa noturna. “Bem no início, quando meu irmão tocou a baqueta em mim”, respondeu afirmativamente.

Em um dos momentos mais marcantes do depoimento, Marcelo relatou que ainda hoje, mais de dois anos depois da tragédia, ainda tem dificuldades para falar sobre o que aconteceu e pediu perdão. Devido à declaração, alguns familiares de vítimas que acompanham o interrogatório começam a chorar. “É difícil estar sentado onde estou, minha vida mudou, mudou muito”, concluiu.

Marcelo dos Santos disse ainda que não pretende mais trabalhar com música. “Devido aos fatos que aconteceram, minha família foi sempre contra de tocar. O destino mostrou que eles estavam certo”, declarou.

No momento em que o interrogatório passou para a acusação, o advogado de Marcelo dos Santos, Marcelo Obregon, pediu para que fosse apresentado um vídeo que, segundo ele, comprova que o vocalista não saiu da casa noturna antes de todo mundo.

"Eu não perdoo", diz mãe de vítima da Kiss após depoimento de vocalista

O pedido de perdão do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, não foi bem recebido por parte dos familiares de vítimas da boate Kiss que compareceram ao Fórum de Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul. O músico prestou depoimento nesta terça-feira (24) na fase mais esperada do processo: o interrogatório dos réus.

“Vejo a dor de todo mundo aqui e gostaria de pedir perdão, se eu fiz alguma coisa errada. Nunca imaginei que poderia acontecer isso na minha vida. É difícil de falar. Tinha pessoas que a gente ama lá dentro. Se tinha que falar alguma coisa, é pedir perdão”, afirmou Santos durante o depoimento.

Durante a fala, a dona de casa e mãe de uma vítima Maria Aparecida Neves, 57 anos, não conteve as lágrimas. "Eu chorei de raiva. Eu chorei porque não me convence esse arrependimento dele." Mãe do estudante Augusto Cezar Neves, 19 anos, ela afirma categoricamente que não perdoa o músico. "Em primeiro lugar, o perdão pertence a Deus. E ele sabia o que fazia. Eu não perdoo. Posso até estar pecando, mas eu não perdoo", afirmou.

No depoimento, o músico demonstrou como segurou o artefato pirotécnico que iniciou o fogo dentro da boate. Ao invés de apontar para cima, ele disse que direcionou para a frente. Maria Aparecida rebate a versão apresentada. "Ele não botou a mão para frente, colocou para cima. Se ele tivesse colocado a mão para frente nada disso tinha acontecido", observa.

Já a atendente de padaria Maria Medianeira Viegas Pereira relata que permaneceu irritada durante o depoimento. "Ele não foi fiel (ao que aconteceu). Uma hora falou que existia só uma porta de saída e depois que saiu por uma porta lateral. Que porta é essa? Tudo mundo sabe que só havia uma porta", contesta a mãe de Mariana Pereira Freitas, 21 anos, vítima do incêndio.

Maria Medianeira também não perdoa o músico e lamenta a vida curta que a filha teve. "Ela saiu para uma festa e voltou morta. Acho injusto que ela não viveu o que precisava viver. Todos são culpados", afirma.

Fonte: G1

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