EUA: conheça a juíza de 85 anos que virou ícone pop e segura avanço conservador no Supremo

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goo.gl/4cYtPh | A notícia de que a juíza da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg, de 85 anos, havia sido hospitalizada gerou apreensão nos Estados Unidos na semana passada.

RBG, como é popularmente conhecida, havia caído e fraturado três costelas, como informou seu escritório pouco depois do incidente.

Vista como pertencente à ala mais liberal da corte, a juíza gerou uma onda reações que misturaram desde votos para uma rápida recuperação a uma espécie de pânico entre os que acreditam que ela tem um papel importante para evitar o avanço de pautas conservadoras no Supremo.

"#RuthBaderGinsburg Não se atreva a morrer, nós precisamos de você!", escreveu uma usuária do Twitter.

"Com essas palavras, eu doo todas as minhas costelas e órgãos a Ruth Bader Ginsburg", publicou na mesma rede social Lauren Duca, colunista da revista Teen Vogue.

Ginsburg voltou para casa na sexta-feira, mas sua ausência temporária relembrou muita gente que, se por alguma razão ela parar de trabalhar, abrirá caminho para que Donald Trump faça sua terceira indicação à corte e consolide uma maioria conservadora entre os juízes.

O presidente americano nomeou Neil Gorsuch em janeiro de 2017 e, mais recentemente, Brett Kavanaugh, cujo turbulento processo de confirmação pelo Congresso foi marcado por acusações de má conduta sexual.

Para o setor mais liberal dos Estados Unidos, RBG não é apenas um símbolo do pensamento mais progressista da sociedade americana - ela virou um ícone pop.

Ginsburg teve sua história retratada em livros e filmes e sua imagem aparece em camisetas e xícaras de café. No último Halloween, imagens de crianças, adultos e até animais vestidos como ela também fizeram sucesso no Twitter.

"Acredito que pessoas de todas as idades ficam entusiasmadas ao verem uma mulher na vida pública que tem demonstrado que, mesmo aos 85 anos, pode ser inabalável em seu compromisso com a igualdade e com a justiça", diz Irin Carmon, uma das autoras de Notorious RBG, livro sobre a vida da juíza. "Não temos muitas figuras como ela."

De baixa estatura, atitude séria e famosa por suas longas pausas na fala, Ginsburg também é conhecida por não dar espaço a conversa fiada.

Mas como uma figura do meio jurídico se tornou tão popular fora dos tribunais?

Direitos das mulheres


Joan Ruth Bader nasceu no bairro de Flatbush, no Brooklyn, em Nova York, em 1933, de pais imigrantes judeus.

Depois de se formar na Universidade de Cornell em 1954, ela se casou com Marty Ginsburg e, pouco depois, teve seu primeiro filho.

Enquanto estava grávida, foi "rebaixada" no trabalho, em um escritório de assistência social. O fato de ter tido o salário reduzido na época - a discriminação contra mulheres grávidas ainda era legal nos anos 50 - a levou a esconder sua segunda gravidez anos depois.

Em 1956, ela se tornou uma das nove mulheres matriculadas na Faculdade de Direito de Harvard - onde, em um episódio que depois ficaria famoso, o reitor provocou as estudantes pedindo que justificassem o fato de terem "tomado o lugar" que seria dos homens na instituição.

Mais tarde, Ginsburg transferiu o curso para a Escola de Direito de Columbia, em Nova York, e virou a primeira mulher a trabalhar nas revisões de leis de ambas as faculdades.

Formou-se em Direito e, apesar de ter sido a melhor da classe, teve que lutar para conseguir emprego.

"Nenhum escritório de advocacia em Nova York me contrataria", disse certa vez. "Eu era judia, mulher e mãe."

Ela acabou virando professora na Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, em 1963, onde ministrou algumas das primeiras aulas de mulheres e Direito, e foi cofundadora do projeto de direitos das mulheres na União Americana pelas Liberdades Civis.

Em 1973, se tornou assessora geral dessa organização, o que deu início a um produtivo período de atuação em casos de discriminação de gênero, seis dos quais a levaram diante da Suprema Corte dos Estados Unidos.

Ela ganhou cinco dos casos que defendeu na época, incluindo o de um homem que reivindicava a pensão da esposa falecida após o parto. Também foi nessa época que trabalhou no caso de uma capitã da Força Aérea que havia engravidado e a quem haviam mandado escolher entre abortar o bebê ou perder o emprego.

A segunda mulher no Supremo Tribunal


Em 1980, o Presidente Jimmy Carter nomeou Ginsburg para o Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia.

Ele ganhou reputação de centrista, com posições às vezes mais próximas dos conservadores - por exemplo, quando se recusou a ouvir o caso de discriminação de um soldado que disse ter sido dispensado da Marinha por ser gay.

Clinton, então presidente dos EUA, nomeou Ruth Bader Ginsburg para a Suprema Corte em 1993 — Foto: Saul Loeb/AFP

O presidente Bill Clinton a nomeou para a Suprema Corte em 1993, após um longo processo de escolha.

Ginsburg se tornou a segunda mulher indicada à mais alta Corte dos Estados Unidos.

'Notorious RBG'


Um dos casos mais importantes de que participou no tribunal foi o chamado Estados Unidos versus Virginia, que anulou a política de admissão apenas de homens ao Instituto Militar da Virgínia.

Ao explicar sua decisão, Ginsburg argumentou que nenhuma lei ou política deveria negar às mulheres "plena cidadania, a mesma oportunidade de aspirar, alcançar, participar e contribuir com a sociedade em função de seus talentos e habilidades individuais".

RBG se tornou a voz mais dissonante da Suprema Corte dos Estados Unidos — Foto: Suprema Corte dos EUA

À medida que a Corte se tornou mais conservadora, Ginsburg se moveu cada vez mais para a esquerda, e agora é famosa por suas inflamadas divergências de opiniões do resto dos juízes.

Foi uma posição que a tornou tão conhecida que uma jovem estudante de direito chamada Shana Knizhnik criou uma conta no Tumblr dedicada a Ginsburg chamada Notorious RBG, uma referência ao falecido rapper The Notorious BIG.

A conta reintroduziu Ginsburg a uma nova geração de jovens feministas e tornou-se tão popular que Knizhnik e Carmon, coautora do blog, a transformaram em um livro com o mesmo nome, que se tornou um best-seller.

"Eu acho que isso é algo que realmente tem agradado a juíza nos últimos anos", diz Schiff Berman, que trabalha para Ginsburg.

"Para ela, é muito emocionante sentir que seu legado pode inspirar uma nova geração de mulheres, especialmente jovens", completa.

Um ícone pop


A internet acabou se debruçando sobre vários aspectos da vida de Ginsburg, profissionais ou não.

A intensa rotina de exercícios da juíza é um desses temas: em um quadro em seu talk show, o comediante Stephen Colbert chegou a acompanhá-la na academia e a treinar junto com ela.

RBG tem sido celebrada por seu estilo, desde a sua predileção por luvas de renda até seus elaborados "jabots", os colarinhos que ela usa sobre suas túnicas - incluído aí seu famoso "colarinho da divergência", que ela usa em alguns dos casos em que discorda da maioria.

A juíza não está imune a críticas, entretanto - nem a erros.

Durante as eleições de 2016, ela chamou o então candidato Donald Trump de "farsante" e disse que não podia nem imaginar um mundo com ele como presidente dos Estados Unidos.

"Ele diz tudo o que vem à cabeça no momento, é realmente um egocêntrico", disse ela à CNN.

Suas declarações foram criticadas tanto pela direita quanto pela esquerda, que argumentaram que tais comentários poderiam comprometer sua imparcialidade e autoridade no tribunal.

RBG acabou se desculpando.

Aposentadoria?


Durante os dois mandatos do presidente Barack Obama, alguns especialistas questionaram se não era hora de Ginsburg se aposentar naquele momento, com um democrata no poder, o que permitiria a entrada de outro juiz liberal no tribunal.

Os apelos foram recebidos por ela com certa irritação.

"Muita gente tem me perguntado: 'Quando você vai renunciar?', Mas, enquanto eu puder continuar a fazer meu trabalho a todo vapor, continuarei aqui", disse ela em entrevista neste ano.

Carmon, por sua vez, ressalta que, apesar de esta não ser a primeira vez que Ginsburg quebra as costelas e de ao longo da carreira ter enfrentado outras batalhas de saúde - o quer inclui sua luta contra um câncer e uma cirurgia cardíaca em 2014 - ela nunca perdeu um dia de discussões no Tribunal.

"Ela sempre volta com mais determinação e resistência. Ela está nesse trabalho há pelo menos meio século e ainda não acabou para ela", diz.

Por BBC
Fonte: g1 globo

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