Sobrevivente de tragédia em Brumadinho pede indenização de R$ 700 mil à Vale por danos morais

Um comentário
goo.gl/zSCR5Z | O motorista Fernando tinha acabado de almoçar quando decidiu descansar dentro do carro. Pouco depois, um barulho estranho o tirou do sono. "Deve ser a locomotiva", ele pensou, voltando a adormecer. Mais alguns minutos se passaram e o barulho se tornou cada vez mais alto e o veículo começou a balançar "como se alguém estivesse chacoalhando". Foi quando Fernando se levantou, olhou para trás e viu chegar a "tsunami de rejeitos" que foi gerada com o rompimento da barragem 1 da Mina do Feijão, no complexo da Vale em Brumadinho (MG).

A proximidade à saída da mina que dá para o povoado do Córrego do Feijão permitiu ao homem se salvar, mas sobreviver não é somente o que ele queria. Sem ter recebido apoio psicológico da mineradora desde que a tragédia ocorreu, Fernando (que pede para ser identificado apenas pelo primeiro nome) entrou na Justiça com uma ação de danos morais no valor de R$700 mil contra a empresa.

— Eu dei a partida no carro e saí acelerado. Nessa hora, uma moça que 'tava' correndo caiu e pediu para entrar. Ela entrou e também apareceu um senhor pedindo ajuda e assim que ele entrou eu saí em disparada — lembra o motorista.

A mulher que Fernando resgatou trabalhava no refeitório (uma das áreas mais próximas ao rompimento e onde mais corpos foram encontrados — ao todo, foram 150 corpos resgatados até esta quarta-feira). Por sorte, ela estava no final do turno de trabalho.

A velocidade da lama assustou os ocupantes do veículo:

— Eu achei que era só a avalanche que vinha por trás, mas assim que eu virei em uma 'matinha', já veio outra enxurrada de lama, que bateu no carro e arrastou. Eu tinha certeza que eu ia morrer essa hora. O pessoal dentro do carro desesperado e a gente ouvindo muita gritaria lá fora — lembra Fernando.

A lama que poderia ter encoberto o veículo, no entanto, acabou impulsionando a fuga dele e das duas pessoas que ajudou. Eles que seguiram por uma estrada de terra para, por fim, terminarem o percurso a pé, rumo a um ponto alto, próximo à ponte férrea que desabou.

Junto com o trio, havia mais um grupo de sobreviventes, que também estavam próximos à portaria na hora da tragédia:

— As pessoas que estavam a pé foram pulando nas caminhonetes. Eu mesmo só escapei porque estava no carro.

Fernando não sabe dizer, ao certo, quanto tempo passaram ilhados até serem encontrados por militares do Corpo de Bombeiros, mas calcula que tenham sido muitas horas, já que só foram resgatados na parte da noite (o acidente aconteceu por volta de meio-dia).

— Tinha um pouco de água no reservatório de um caminhão que escapou, mas eu quase não tomei, porque estava muito quente e o calor era muito forte aquele dia — relata.

Atendimento negado


Nos autos do processo, há uma narração sobre como Fernando chegou a procurar a ajuda de uma funcionária uniformizada que estava no posto de atendimento do Espaço do Conhecimento, em Brumadinho. Ela teria afirmado que não seria possível ajudá-lo, pois o homem não estava aparentemente ferido.

— Desde que tudo aconteceu não teve um dia que eu dormi direito. Fico acordando assustado, tive que começar a tomar remédio — diz Fernando.

Um dos advogados responsáveis pelo caso, Nathan Sant Anna Estevão diz que não acredita que seja o momento para uma ação coletiva contra a Vale e que a responsabilização deve ser individual, mesmo que muitas pessoas entrem com processos contra a companhia.

A Vale se manifestou por meio de nota: “A Vale informa que ainda não foi formalmente notificada do processo judicial em questão. A empresa reforça que está focada nas ações voltadas ao atendimento emergencial de Brumadinho e no apoio a todos os atingidos”.

Camila Bastos, especial para O Globo
Fonte: oglobo.globo.com

Um comentário

  1. Ao que parece, o "advogado" informido na notícia, está inscrito como estagiário na OAB/MG.

    ResponderExcluir

Agradecemos pelo seu comentário!