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Moeda, juiz de primeira instância e o realismo fantástico – Por Lúcio Verçoza

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bit.ly/2WmugHn | Todos os dias, religiosamente, o juiz de primeira instância fazia seu passeio pela pequenina cidade. Durante os sessenta minutos de caminhada, esse senhor, quase desprovido de lábios, dava vinte voltas ao redor da Praça das Armas. Contemplava o cair da tarde com o rosto absolutamente imóvel. Até os cachorros sabiam que ali não se podia latir, pelo menos enquanto durasse o ritual do magistrado. Após concluir o último passo, ele se recolhia, e a praça deixava de ser um deserto, as pessoas voltavam a conversar em voz alta e os cachorros finalmente podiam latir em paz.

Um dia, no entardecer cinzento como outro qualquer, aconteceu algo inusitado. No fim da vigésima volta, exatamente no passo número duzentos e cinquenta e cinco, caiu uma moeda de seu bolso. Todas as casas da cidade e dos povoados próximos sentiram um calafrio ao saber que o juiz de primeira instância a tinha perdido. Na manhã seguinte, as pessoas se aproximaram do local com o olhar temeroso: “É a moeda do doutor”. Ao meio-dia os estudantes colegiais a admiravam. O metal de bronze, que poderia ser trocado no máximo por cinco bolachinhas insossas, se banhava ao sol sem ser incomodado. Por volta das quatro da tarde, uma criança ousou cutucar a moeda com uma tabica: nesse instante a província gelou. Ninguém mais se atreveu a tocá-la.

As histórias sobre o juiz de primeira instância corriam pelas redondezas há tempos.  Ele portava no paletó do terno preto uma caneta com poderes mágicos: sua tinta era capaz de prender ou soltar pessoas. Diziam que seu ditado preferido era “aos amigos tudo, aos inimigos a lei.” Mas, quem estava preso na solitária, condenado unicamente com base na delação de outros condenados ou na palavra do guarda de quarteirão, sabia perfeitamente que tal juiz não tratava seus inimigos com a lei, antes fosse. A lei, de acordo com sua concepção, era apenas um adereço para as sentenças, um objeto camaleônico para adornar decisões tomadas previamente. Era comum prender por atos indeterminados sujeitos determinados. Se não havia crime, bastava afirmar que o réu era ladrão de cavalo. Alguns pensavam que ele tinha mais poder do que Deus, mas tinham vergonha ou medo de externar tamanha heresia.

Essa história, aparentemente distante, foi contada por Manuel Scorza no livro Redoble por Rancas, publicado em 1970.[1] O autor conviveu com camponeses nos Andes Centrais, no Peru, e registrou as arbitrariedades e ilegalidades cometidas pelo Dr. Montenegro, juiz de Yanahuanca. A escrita poética e cortante de seu romance foi fundamental para a libertação de Héctor Chacón, conhecido como “Olho de Coruja” – camponês que ousou resistir ao arbítrio e ficou preso por mais de dez anos. Como disse Scorza, era preciso proteger os justos contra a justiça.

A moeda foi a metáfora encontrada, uma metáfora do realismo fantástico para desnudar o poder. Ela não foi tocada, permaneceu no chão durante exatos doze meses: “E a moeda do doutor?” “Continua no mesmo lugar.” “Ninguém mexeu nela!” “Assim é que deve ser!”. Até que no dia de Santa Rosa, um ano após a peça metálica escapulir do bolso do terno preto, os olhos de camundongo do juiz de primeira instância deram com a famosa moeda. A cidade se arrepiou apreensiva. O juiz, sempre de terno preto, recolheu o vil metal e se afastou, pensando na sua sorte por encontrar uma moeda. “A província suspirou.”

O fantástico é mais real do que pode supor a linguagem usual. Manuel Scorza, Gabriel Garcia Márquez, Sulpicia de Rancas, Héctor Chacón e Luiz Sávio de Almeida[2] sabiam e sabem muito bem disso. A caneta do juiz Montenegro era pior do que mau-olhado. Contra ela era preciso unir o real ao fantástico, articular ação com imaginação, razão com emoção. Dizer o óbvio por outros caminhos, como uma maneira de ser escutado. Como uma forma de gestar o real recriado.

Décadas depois, a moeda reapareceu em outra praça, conhecida como Praça dos Três Poderes. No clima seco e quente da cidade, a moeda de bronze continua mais uma vez imóvel, enquanto o mundo à sua volta derrete. O juiz de primeira instância permanece com o mesmo terno preto, a novidade é que agora assumiu um cargo no alto escalão do governo. Seus olhos de camundongo não enxergam adiante, miram apenas o hoje como se fosse eterno. A moeda contempla o entardecer, tão estática quanto o rosto de seu dono. Até quando? Ninguém sabe. O arrebol no horizonte anuncia uma longa noite.  O Cruzeiro do Sul lembra que amanhã será outro dia. Nenhum juiz é capaz de prender o sol.

O autor é doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e autor do livro Os “homens-cangurus dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde” (Edufal-Fapesp, 2018).

[1] O romance foi traduzido para o português com o título “Bom dia para os defuntos” (SCORZA, Manuel. Bom dia para os defuntos. Tradução de Hamílcar de Garcia. Círculo do Livro, 1976).

[2] No belo livro “A história escrita no chão” (Edufal, 1997), Sávio de Almeida desenvolveu a tese sobre a dimensão concreta do fantástico.

Por Lúcio Verçoza
Fonte: jornalggn.com.br

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