Thainá foi aprovada no concurso realizado em 2020. Quando o curso de formação começou, ela estava com 6 meses de gestação. Antes, havia passado pela prova objetiva, teste de aptidão física, avaliação psicológica, exame toxicológico e pela investigação social.
Ela ainda conseguiu seguir por um mês, mas acabou desligada quando estava grávida de 7 meses, por decisão administrativa da Secretaria de Justiça e Cidadania de Roraima (Sejuc).
Segundo a jovem, isso ocorreu mesmo após apresentar exame médico que comprovava condições físicas e mentais para continuar no curso, e atestado de que a gravidez não era de risco. A partir daí, começou a saga para garantir o direito de concluir o processo.
"Me senti punida. Me chamaram numa sala e disseram que a partir do outro dia eu não precisava mais ir. Acredito que deveria haver adaptação para não prejudicar as mulheres. Um homem não seria desligado por ser pai, e eu fui desligada por ser mãe".
Determinada, Thainá buscou a Justiça para tentar retornar ao curso ainda grávida. À época, pagou R$ 3 mil a um advogado particular, mas não conseguiu reverter a medida.
Garantia ao direito fundamental da mulher
A situação mudou em 2023, quando a Promotoria de Justiça de Defesa da Mulher, do Ministério Público, cobrou que a Sejuc adotasse medidas para reconsiderar o desligamento, tendo em vista que a exclusão feria a Constituição Federal e legislações de proteção à mulher que preveem a garantia de acesso ao trabalho para as gestantes.
À época, a promotora Lucimara Campaner frisou que a gravidez não poderia ser uma condição para impedir uma mulher a avançar no concurso, tampouco ser obstáculo para acessar cargo público e a carreira profissional. Com isso, ficou definido que Thainá poderia concluir a formação após o nascimento do filho — e foi o que aconteceu.
"Espero que seja só a primeira de muitas conquistas. E que o que aconteceu comigo não aconteça com outras mulheres", disse ela, agora pronta para atuar em uma das unidades prisionais do estado.
O retorno ocorreu em 2023, quando o filho Théo Lucca estava com 9 meses de vida. "Não gostaria que outras mulheres passassem pelo que eu passei. Ainda estava amamentando e cumpri as etapas que não podia fazer grávida", relembrou.
Além de Thainá, outros 73 novos policiais penais foram empossados. Com isso, o quadro efetivo da Polícia Penal de Roraima passa a ter com 877 servidores na área.
'Foram noites de choro'
Antes da posse oficial, houve a nomeação dos novos policiais no dia 4 de fevereiro de 2026. Nas redes sociais, Thainá compartilhou duas fotos simbólicas: uma ainda grávida, pouco antes de ser desligada do curso de formação; e outra, três anos depois, nomeada, com o filho.
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| Policial penal Thainá Santos e o filho, Théo Lucca, na cerimônia de posse, em Boa Vista — Foto: Arquivo pessoal |
Depois de tantas incertezas, a posse não representou apenas a conquista de um cargo público, mas a confirmação de uma trajetória marcada por resistência e coragem:
"Foram noites de choro e desespero. Mas deu certo. Hoje, só quero trabalhar, dar o meu melhor e agradecer a Deus", concluiu.
Até passar para a Polícia Penal, Thainá estudou para concurso por oito anos. No processo entre retornar ao curso de formação, ela também foi aprovada para Guarda Civil Municipal de Boa Vista. Recentemente, chegou a ser convocada, mas optou por permanecer na Polícia Penal, por ser um cargo estadual.
Concurso quase venceu
Segundo Thainá, o concurso da Polícia Penal ficou suspenso por cerca de 15 meses em razão de questionamentos judiciais sobre supostas irregularidades no exame psicotécnico.
O prazo de validade do concurso se encerraria em 29 de setembro de 2025. Três dias antes, ela decidiu publicar um vídeo sobre a própria trajetória e também de colegas formados que ainda aguardavam a posse.
A gravação ultrapassou 100 mil visualizações, ajudou a dar visibilidade e contribuiu para evitar que o certame perdesse a validade. "Se não fosse essa repercussão, muitas pessoas ficariam de fora", disse.
Hoje, depois de tudo que passou, Thainá reflete que, se o percentual de vagas fosse igual para homens e mulheres, ela estaria trabalhando há mais tempo. O edital reservava 70% das vagas para homens e apenas 30% para mulheres.
"Se fosse apenas por nota, eu já estaria trabalhando há três anos. Teve homem com 60 pontos que passou, e mulher com 68 ficando de fora. Em outra chamada, homens com 56 pontos entraram e mulheres com 60 ficaram de fora. Eu fiz 62", conta.
Ao atuar para garantir que Thainá tivesse o direito de concluir o curso de formação, a promotora de Justiça destacou que o caso simboliza a proteção dos direitos das mulheres e a garantia de segurança profissional.
"Para o Ministério Público de Roraima é de suma importância a atuação desenvolvida no sentido de buscar a equidade e garantir direitos constitucionalmente estabelecidos, como é o direito de uma mulher grávida poder receber tratamento equitativo durante um curso de formação na área de segurança pública, a fim de que ela não perca direitos em razão da gravidez", destacou a promotora Lucimara Campaner.
Quando retornou ao curso de formação, Thainá concluiu as atividades sozinha. A medida fez parte de um acordo entre o MP e a Sejuc para que, na data da formatura, ela estivesse nas mesmas condições dos demais candidatos que participaram do curso.
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| Policial penal Thainá Santos (no meio) e a promotora de Justiça, Lucimara Campaner — Foto: Arquivo pessoal |
Por Nalu Cardoso, g1 RR — Boa Vista
Fonte: g1

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