Em um desabafo há dez dias, durante uma sessão da 3ª Turma de Direito Penal do TJPA, Eva disse que, daqui a pouco, juízes não terão como pagar as próprias contas. “Colegas estão deixando de frequentar gabinetes de médicos, porque não vão poder pagar consultas, outros estão deixando de tomar remédios etc. A situação que a magistratura vive hoje é essa”, reclamou.
A desembargadora também se queixou do emprego do termo “penduricalho”, que, segundo ela, é “chulo” e “vagabundo”. “Infelizmente, hoje, fazer parte da magistratura não é mais sacerdócio. É crime. É crime você ser juiz, porque você persegue, como eles falam, ‘penduricalhos’, verbas, cada vez mais verbas, mais verbas e mais verbas, para não fazer nada”, ironizou.
Eva comparou os “penduricalhos” a recursos que qualquer trabalhador ganha por um trabalho extra. “Nós não (podemos)”, questionou. “Nós não temos este direito. Nós não temos direito mais a auxílio-alimentação, a receber uma gratificação por direção de fórum, enfim”, acrescentou, se referindo à situação como “muito triste”.
Em fevereiro de 2026, a juíza recebeu, ao todo, R$ 69,4 mil. A remuneração bruta somou o salário-base de R$ 41,8 mil, direitos pessoais de R$ 6,4 mil, indenizações de R$ 3,5 mil e direitos eventuais de R$ 17,6 mil. Com o desconto do Imposto de Renda (IR) e da Previdência Pública, a remuneração líquida foi de R$ 44,4 mil.
A desembargadora desafiou a população a viver o dia a dia de um magistrado. “Nós trabalhamos um número enorme de horas extras em casa, sacrificando o fim de semana quando a gente está de plantão. Nós, de plantão, não estamos aqui, mas trabalhando em casa, fora os dias que se trabalha à noite”, mencionou.
Para Eva, as “narrativas construídas” estão levando os juízes a perderem o gosto de pertencer à magistratura. “Infelizmente é isso o que está acontecendo”, apontou. “Hoje, nós passamos de cidadãos que zelam pela proteção, pelo direito, pela distribuição da Justiça entre os jurisdicionados, para vilões da história. Nós que somos os bandidos agora.”
A desembargadora ainda vislumbrou que o teto para “penduricalhos” vai afetar os serviços prestados pela Justiça. “A população vai sentir quando procurar a Justiça e realmente não tiver. Aí, ela vai sentir e vai ver qual foi o lado que ela optou. Me desculpe, mas, infelizmente, eu precisava fazer esse desabafo, porque fica engasgado”, concluiu.
