Segundo o depoimento da ministra, o conflito teve início quando ela determinou que a criança desligasse um tablet para dormir, visando o cumprimento do horário escolar no dia seguinte. Diante da negativa do menor, que exigiu ter sua vontade respeitada, estabeleceu-se um debate sobre autoridade e autonomia. Cármen Lúcia reproduziu o diálogo ocorrido: "Tia, eu não estou com vontade. Respeite a minha vontade! E você respeite o horário, meu filho. Eu vou respeitar o relógio e não me respeitar", narrou a magistrada.
A ministra explicou que a situação escalou até o momento em que precisou exercer uma decisão impositiva para encerrar o impasse. Ao desligar o dispositivo de forma vertical, ouviu do sobrinho-neto a afirmação de que ela não estaria agindo como uma democrata. A partir dessa interação, Cármen Lúcia estruturou sua tese de que a democracia é frequentemente fácil de ser defendida em discursos públicos, mas complexa de ser exercida em relações interpessoais.
Para a magistrada, existe uma tendência social de cobrar transparência e liberdade das instituições de Estado enquanto se mantém dinâmicas ditatoriais no ambiente doméstico. Ela citou como exemplo pais que impõem escolhas profissionais aos filhos, desconsiderando o diálogo. A ministra concluiu que o exercício democrático exige a contenção do ego em favor do coletivo. "É preciso então que a gente aprenda a ser democrata o dia inteiro. E não é fácil, porque a tendência é que a sua vontade, o seu desejo, a sua aspiração se estenda", finalizou.
Fonte: @jurinews
