Quem é o advogado preso por jogar notebook da janela durante operação que investiga fraudes em ações de idosos

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Via @portalg1 | O advogado Guilherme Menna Barreto Gentil, preso durante uma operação do Gaeco em Ribeirão Preto (SP), atua em ações contra bancos no interior de São Paulo e tem escritório em Altinópolis (SP). Segundo o Ministério Público, ele é a figura central de um grupo investigado por fraudes em milhares de ações, muitas em nome de idosos.

Guilherme foi preso em flagrante na terça-feira (20), suspeito de jogar um notebook e um celular pela janela do apartamento quando os policiais chegaram para cumprir um mandado de busca. Nesta quarta-feira (21), a Justiça decretou a prisão preventiva dele.

Nas redes sociais, ele publicava vídeos para aposentados e pensionistas. Além do escritório, é sócio de uma empresa de compra de créditos judiciais, aberta em 2024, segundo dados da Receita Federal. A investigação apura se créditos que idosos ganharam na Justiça foram comprados por valores muito abaixo do que valiam.

A defesa nega que ele tenha cometido fraudes ou ficado com dinheiro de clientes. O g1 procurou o advogado dele para comentar os vídeos, a empresa e a prisão, mas não havia obtido resposta até a última atualização desta reportagem.

Guilherme Menna Barreto Gentil — Foto: Reprodução/ redes sociais

Advogado de ações contra bancos

Guilherme é inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) desde 2017. Ele atua em direito bancário e do consumidor, com ações contra bancos por descontos de empréstimo consignado, cobranças indevidas e nome negativado.

O escritório dele, a MBG Advocacia, funciona em Altinópolis, no mesmo prédio da Desenrola, empresa do pai dele, segundo a investigação. Em março de 2026, ele abriu também uma sociedade individual de advocacia em Ribeirão Preto, segundo a Receita Federal.

O que ele dizia nas redes

Nos vídeos publicados no Instagram, Guilherme se apresenta como “advogado na área de Direito Bancário e Direito do Consumidor”. Ele diz que a MBG Advocacia atua em casos de fraude, cobranças indevidas em empréstimos consignados, aposentadorias, pensões e conta corrente, além de nome negativado.

“Hoje, nós já ajudamos mais de mil pessoas a terem sua vida financeira solucionada, recebendo os valores que foram cobrados indevidamente”, afirma em um deles.

Em outro vídeo, ele fala diretamente a aposentados e pensionistas sobre os descontos de associações e sindicatos em benefícios do INSS, investigados pela Polícia Federal desde 2025. Segundo ele, esses descontos mostram que os dados dos aposentados foram usados de forma indevida e podem levar a outras fraudes, como em empréstimos consignados.

“Resolva esse problema agora mesmo. Procure um advogado especialista que vai te ajudar a recuperar todos esses valores descontados indevidamente”, diz.

Os vídeos terminam com a orientação de procurar um advogado. No de apresentação, ele pede que o público fique “conectado conosco para mais dicas e informações”.

As regras da OAB permitem que advogados publiquem conteúdo jurídico nas redes, mas proíbem incentivar diretamente a entrada na Justiça ou a contratação do serviço e vetam a promessa de resultado.

Os documentos da investigação aos quais o g1 teve acesso não dizem se os clientes ouvidos pela Justiça chegaram ao escritório pelos vídeos. Uma idosa contou à polícia que conheceu a Desenrola por um anúncio em carro de som.

Guilherme Menna Barreto Gentil — Foto: Reprodução/ redes sociais

Como funcionava o esquema, segundo a investigação

A investigação começou depois que a Vara de Altinópolis estranhou o volume de ações ligadas ao advogado: são mais de 2 mil só na cidade. Em outro levantamento citado pela Justiça, são cerca de 1,3 mil processos em um dos sistemas do Tribunal de Justiça e centenas em outro.

Segundo o Gaeco, o caminho era este:

• Atendimento: os clientes, muitos deles idosos, eram recebidos por funcionárias da Desenrola, que recolhiam documentos e colhiam a assinatura da procuração.

• Ações em massa: o escritório entrava com ações repetidas contra bancos.

• Venda do crédito: em vários casos, o direito de receber o dinheiro foi vendido por valores bem menores. Em um caso de Altinópolis, um crédito de cerca de R$ 3,2 mil foi comprado por R$ 500 pela Desenrola.

• Saque: nos casos encontrados pelo g1, o pedido de saque indicava a conta pessoal de Guilherme, mesmo depois da venda.

Chamados pelo juiz, vários autores das ações disseram não saber quanto dinheiro tinha sido liberado nem que tinham vendido o direito de recebê-lo. Segundo o Gaeco, mais de R$ 2 milhões foram sacados em processos dele só em Altinópolis.

Por que isso é investigado

Vender o direito de receber o dinheiro de um processo é permitido por lei. O que está sob investigação é a forma como as vendas foram feitas:

• vários clientes disseram não saber que tinham vendido o crédito;

• nos casos encontrados pelo g1, o preço ficou abaixo de 20% do valor; em dois deles, a ação já estava ganha;

• a compradora, em dois dos casos encontrados pelo g1, era a empresa do pai do advogado, e o Estatuto da Advocacia considera infração o advogado se beneficiar à custa do cliente, inclusive por meio de outra pessoa;

• depois da venda, o dinheiro passa a ser da empresa compradora, mas o saque era pedido para a conta do advogado.


Se o advogado ficou com dinheiro que era do cliente, o caso pode configurar apropriação indébita. A investigação também apura estelionato, inclusive contra idoso, fraude eletrônica, falsificação de documento, falsidade ideológica e organização criminosa. Os investigados ainda não foram denunciados à Justiça.

O juiz de Altinópolis suspendeu saques em processos de Guilherme, passou a exigir procurações com firma reconhecida e enviou o caso ao Ministério Público e à OAB. Guilherme recorreu ao Tribunal de Justiça. Em pelo menos um caso, o tribunal suspendeu a exigência de firma reconhecida, mas manteve as outras medidas.

As empresas

Guilherme é sócio-administrador da AMG Compra de Créditos Judiciais, aberta em junho de 2024 em Altinópolis, segundo a Receita Federal. A Justiça autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal da empresa na investigação, segundo documentos aos quais o g1 teve acesso.

Nos três casos de venda de créditos encontrados pelo g1, porém, as compradoras foram outras empresas: a Desenrola, do pai de Guilherme, e a Finalize, de Campo Grande (MS).

A Desenrola Soluções Administrativas foi aberta em dezembro de 2023 em Altinópolis e tem como sócio-administrador Rodrigo Gentil, pai do advogado. Em 2025, Guilherme abriu em Ribeirão Preto outra empresa com o nome Desenrola, de serviços administrativos, que já foi fechada. Ele também é sócio-administrador de uma empresa de cultivo de café em Altinópolis, desde 2015.

A prisão

Segundo a decisão que manteve a prisão, os policiais o encontraram em um banheiro trancado, perto de uma janela aberta. Um notebook e um celular foram achados danificados na cobertura da piscina do prédio.

Para o juiz, solto, ele poderia apagar provas e influenciar testemunhas. A decisão também cita risco de fuga, porque ele tem visto válido para os Estados Unidos e esteve no país recentemente.

Advogados são investigados por esquema de fraude em ações em nome de aposentados e pensionistas na região de Ribeirão Preto — Foto: Kaique Castro/EPTV

O que diz a defesa

“Em momento algum, ele cometeu fraude, em momento algum, ele se apropriou de valor de cliente”, disse o advogado Julio Mossin, que defende Guilherme, na terça-feira (20). No mesmo dia, ele afirmou que o cliente não admitiu ter jogado os equipamentos e que não havia motivo para mantê-lo preso.

Investigados ou alvos de medidas nas operações Libelo e Garatéia, do Gaeco, em Ribeirão Preto, Altinópolis e Franca (SP) — Foto: Reprodução OAB e Redes Sociais

Antes da operação, em depoimento à polícia, Guilherme negou irregularidades e atribuiu as reclamações de clientes às vendas de créditos feitas pela Desenrola.

Por Lucas Zanetti, Isabela Leite, g1 Ribeirão e Franca e GloboNews
Fonte: g1

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