Aborto: meu corpo, minhas regras? (Artigo) de Nelson Olivo Capeleti Junior

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goo.gl/9L1Sjs | Amanda, perplexa com o atraso no ciclo menstrual, saiu pálida do banheiro. Na sua mão direita, a mostragem do teste rápido, com os dois riscos em evidência. Estava grávida. Sentou-se ao pé da escada e seu olhar perdeu-se em cogitações do imaginário.

O aborto fora descriminalizado no Brasil, havia um ano, e portanto, interromper a gravidez ser-lhe-ia uma possibilidade licita. Cogitava, se teria ou não a criança.

Fechou os olhos e lembrou-se da noite de amor. O sexo despudorado. O corpo rude do homem amado, e suas formas delicadas. Os sons; as imagens; os orgasmos, e agora, a gestação.


Por que motivo não usaram preservativo? Por que motivo não adotaram as medidas contraceptivas?

Amanda passou o dia improdutiva no trabalho, absorta em lúgubres cogitações.

Combinara com o namorado de encontrarem-se na sua casa, após o expediente e, chegado o horário combinado, Jean bateu a porta.

Ao ser recepcionado por Amanda, o namorado apaixonado, abraçou-a, enlaçando-a em seus braços e tecendo carícias em seu rosto e cabelos. Seguiram para o conforto do sofá, a fim de iniciarem animada palestra.

Amanda, já demonstrando preocupação no olhar, e sem conter as emoções que lhe congestionavam o íntimo, contou o ocorrido.

- Jean, estamos grávidos. - Eu fiz o exame hoje pela manhã, e o resultado foi positivo. Entretanto, não sei se levamos adiante a gravidez ou se a interrompemos, haja vista, sequer termos concluído, ambos, a faculdade.

Jean, perplexo, ponderou moderadamente.

- Sim, Amanda, tem razão. Eu estou definitivamente feliz pela gravidez, contudo, por certo este não seria o melhor momento para termos um filho, sendo que a lei nos permite interromper a gestação, acho melhor não termos este filho agora.

A decisão era, sob o ponto de vista financeiro e social, a mais coerente. Amanda e Jean ainda cursavam, ambos, o ensino superior. Um filho, neste momento de suas vidas, afastaria Amanda dos estudos, ao menos por algum tempo. E os gastos trariam grandes dificuldades para que ambos pudessem satisfazer seus anseios materiais.

A gestação encontrava-se na quarta semana. Neste período, a placenta já começara a se formar, envolvendo o embrião com o líquido amniótico, que auxilia na alimentação do embrião e o protege caso a gestante sofra uma queda.

Amanda, conseguiu marcar uma consulta para a próxima semana. Assim, a gestação estaria no quinto ciclo semanal, e o feto lentamente se desenvolvia, dando forma a sua anatomia.

Passada a triagem, a médica encarregada pelo atendimento, solicitou alguns exames, para conferir o estado de saúde da mãe e do feto antes de marcar o procedimento.

Contudo, a gestação já se encontrava no segundo mês. O coração do feto, já batendo de forma acelerada, aproximadamente 150 vezes por minuto. Nessa fase se inicia a formação do sistema nervoso e dos aparelhos digestório, circulatório e respiratório. Os olhos, a boca, o nariz, os braços e as pernas também começam a se desenvolver. O comprimento do embrião chega a 4 cm.

Quando todos os exames estavam prontos, e Amanda estava apta a passar pelo procedimento de expurgo do feto, a gestação encontrava-se no terceiro mês. Este período é marcado pelo desenvolvimento do esqueleto, das costelas e dos dedos de mãos e pés. Todos os órgãos internos se formam até o fim do mês, quando o feto mede 14 cm.

Quando fora repousar na noite anterior ao procedimento, tivera um sonho singular: sonhara que um rapaz de feição desconhecida, mas por quem nutria estranho afeto, lhe pedia permissão para nascer.

No sonho, Amanda, movia-se em atmosfera menos densa, e observou a seu redor presenças afins, entretanto, estranhas a seu círculo social. Contudo, sentia grande reverência pelas figuras presentes e considerava-se acolhida na assembléia venturosa.

No sonho, aceitou o desafio de ser mãe, e o rapaz, que momentos antes lhe rogou a destra materna, foi encolhendo em tamanho, até chegar a dimensão de um recém-nascido. Os circunstantes tomaram o recém-nascido aos braços, e, ajustaram-no ao corpo de Amanda, deixando unidas as duas personalidades, como se o corpo de Amanda absorve-se a massa corpórea infantil, até que existisse apenas uma figura na qual se complementavam dois seres.

Quando acordou, referta de bons sentimentos, lembrou-se das carências materiais, e logo justificou-se, procurando afastar as imagens do sonho. Não poderia voltar atrás, no dia do expurgo.

Rumou para o hospital onde seria levado a termo o aborto, e, justificando a si mesma, que tão logo conclui-se os estudos, engravidaria e cumpriria com o compromisso assumido em sonho, entregou-se ao procedimento médico.

Tão logo deram início ao procedimento, começou a sentir fortes dores abdominais, que foram se intensificando, até ficarem insuportáveis.

Sentiu que estava perdendo a visão periférica, e os sons começaram a ficar abafadiços, distantes.

A dor, contudo, começou a diminuir, na mesma medida em que imagens e sons iam se apagando, lentamente...

Tudo escureceu. Amanda apagou.

De sobressalto, assustada, acordou, com o corpo embebecido em suor, em sua cama. Cólicas abdominais irrompiam violentamente.

Olhou para o lado e viu o teste de gravidez farmacológico, ainda fechado. Tudo não passara de um sonho…

Levantou-se e rumou para o banheiro, de onde saiu desconcertada. O exame dera positivo.

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Nelson Olivo Capeleti Junior
Bacharel em Direito pela Faculdade Cenecista de Joinville. Aprovado no XX Exame de Ordem. Advogado.OAB/SC 51.501 Contato: capeleti.legis@gmail.com Rede Social: Nelson Capelletti
Fonte: Jus Brasil

2 comentários

  1. Muito bom texto.
    Fica muito claro...cada vez mais claro...que é preciso assumir responsabilidades diante das escolhas! Ainda mais se estas escolhas envolvem um incapaz de fazê-las por si...de defender-se. A liberdade termina quando começa a do outro.

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  2. A questão eh dar a liberdade de escolha sobretudo lembrando que muitas mulheres morrem todos os dias por submeterem a procedimentos clandestinos e inseguros. Excelente texto

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