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Gourmet e vinhos: advogada larga carreira para fazer showcooking em cruzeiros

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goo.gl/TC5AJ9 | No banco onde era advogada, era mais conhecida por fazer bolos do que pelas funções que tinha no departamento jurídico. Toda a gente lhe fazia encomendas para um aniversário, uma festa ou só porque eram maravilhosos. Carolina Gomes até tinha feito um curso de cake design mas nunca imaginou viver disso. Tudo mudou quando conheceu o agora marido, Pedro, no final de 2012.

“Ele perguntou-me: ‘Mas porque é que não mudas?’ Eu não tinha resposta para lhe dar”, explica Carolina Gomes à NiT.

Depois de dez anos a trabalhar na área em que se tinha formado, largou tudo e hoje, aos 39 anos, faz espetáculos de showcooking em cruzeiros que já a levaram até ao Alasca, Caraíbas, canal do Panamá e México. A mudança não foi logo tão radical. Primeiro passou pelos Estados Unidos, onde estudou numa das conceituadas escolas da cadeia Le Cordon Bleu, e trabalhou no Four Seasons, tanto nos Estados Unidos como em Inglaterra. Mas esta viagem começa bem antes e já teve paragens por todo o mundo.

Um curso de pastelaria na Le Cordon Bleu


Nasceu nos Açores, em Ponta Delgada, e quando tinha dois anos a família mudou-se para Lisboa. Um ano mais tarde, Macau foi o destino e foi lá que viveu até aos seis. Por essa altura regressou a Lisboa de vez com os pais e a irmã mais velha.

“Lá em casa, o meu pai só sabia abrir uma lata de atum. A minha mãe dizia-me: ‘Podes fazer o almoço.’ Mas o que eu queria era fazer bolos. Ainda hoje, chego a casa de alguém e em cinco minutos estou a cozinhar”, conta.

Garante que nunca foi pressionada pelo pai, advogado, a estudar direito mas ela sempre achou que era o caminho lógico a seguir. “Não tinha aquela paixão nas tenho um raciocínio argumentativo e gosto de estudar.”

Tirou o curso na Faculdade de Direito de Lisboa e fez um estágio na sociedade de advogados Rui Pena Arnaut & Associados. Nos dez anos seguintes passou pela firma Raposo Bernardo & Associados, trabalhou com o pai e transferiu-se para o Banif. Aí especializou-se em direito financeiro, mais uma vez porque parecia o passo natural.



Quando, em 2013, se despediu, tomou também uma decisão. “Não ia abrir um negócio sem saber. Tinha de ir estudar.”

Imediatamente pensou na prestigiada Le Cordon Bleu, em Paris, mas a língua era um obstáculo. Com 23 escolas espalhadas pelo mundo, Carolina Gomes sabia que tinha outras opções e começou a mandar emails para todo o lado. Responderam-lhe de Scottsdale, no estado norte-americano do Arizona, e mesmo sem acreditar que fosse verdade, Carolina e o marido meteram-se num avião a caminho dos Estados Unidos.

“Quando entrei na Le Cordon Bleu, senti que tinha de novo seis anos, estava na primeira classe e precisava do apoio da minha mãe. O mais curioso é que nunca cheguei a conhecer a pessoa que me respondeu ao email, já não trabalhava lá quando cheguei.”

O curso durou dois anos. Carolina e Pedro (web designer e triatleta profissional) viviam das poupanças e com a ajuda dos pais quando necessário. “Às vezes tínhamos de pagar a renda e nem sempre tínhamos liquidez nos EUA”, recorda. Apesar disso, quando faziam investimentos, eram todos para a cozinha. “Comprámos uma máquina Ninja, que juntava processador, aparelho de sumos. Custou-nos 800 dólares [cerca de 700€]. Quando voltámos para Portugal, tivemos de deixá-la para trás, era enorme.”

Na escola, cada um tinha a sua estação, uma batedeira e do melhor material existente no mercado. Um chef, que ali era também professor, demonstrava uma receita e os alunos tentavam recriá-la a seguir. A prática era um dos fatores mais importantes e os estágios eram incentivados. Foi por isso que Carolina procurou emprego no Cafe Monarch, que é “considerado um dos restaurantes mais românticos dos Estados Unidos”.

Disseram-lhe “vem cá na quinta-feira” mas a portuguesa achou que aquela resposta era mais para despachá-la do que para lhe oferecerem um cargo. Estava enganada. Em pouco tempo passou a ocupar a estação de frios e quase a fazer de olhos fechados pratos como crostatas com creme de queijo de cabra e figo. Na cozinha eram apenas três e preparavam jantares para 100 ou 200 pessoas por noite.

Metidos num autocarro, à noite, a caminho do México


Terminado o estágio e o curso, o casal decidiu ficar nos Estados Unidos um terceiro ano para trabalhar mas nada nesse processo foi fácil.

“Tivemos de sair do país para recebermos novamente autorização para entrar e o visto de trabalho”, conta Carolina Gomes.

Meteram-se num autocarro, à noite, e seguiram em direção a Nogales, no México, onde tinham entrevistas no consulado português. Não lhes aconteceu nada de mal mas tiveram todos os cuidados que lhes aconselharam para não se verem envolvidos num cenário de filme de terror.

“A própria embaixada portuguesa tinha muitos alertas na página oficial. Não devíamos alugar um carro porque, ao irmos sozinhos, corríamos o risco de nos roubarem o passaporte, por exemplo.”

Atravessar de novo a fronteira foi um alívio e tratada a parte burocrática, conseguiu um emprego no hotel de cinco estrelas Four Seasons, em Scottsdale.

Por lá era famoso o pão português e a broa e Carolina fez também questão de apresentar os doces aos americanos. “Fiz pastéis de nata e o doce de ovos chegou a entrar numa sobremesa.”

Cada espetáculo tem 200 pessoas no público.

Passado um ano e meio, o visto expirou e a ideia era regressar a Portugal. No entanto, recebeu uma proposta para se transferir para o Four Seasons de Ten Trinity Square, em Londres. “Sempre quis viver lá mas fui sozinha porque o Pedro não se dava muito bem com o clima.”

Na equipa de pastelaria eram oito e não havia um único inglês. Eram portugueses e franceses mas a adaptação foi mais difícil do que estava à espera, até porque já se tinha habituado aos métodos dos Estados Unidos. “Lá trabalha-se muito mas sem obstáculos desnecessários. Por exemplo, nos EUA era tudo padronizado e os tabuleiros tinham dois tamanhos, pequeno e grande. Em Inglaterra havia quatro tamanhos, fornos diferentes para cada tabuleiro específico. Aquilo deixava-me maluca.”

Quatro meses depois, despediu-se sem ter nenhuma alternativa. Sonhava trabalhar para a marca “America’s Test Kitchen” (que começou por ser um programa de culinária na televisão norte-americana mas que é agora um império com livros, programas de rádio e espetáculos de showcooking em barcos). Mais uma vez foi Pedro, o marido, a dar-lhe o empurrão necessário.

“Sempre me atraiu a ideia de estar na cozinha a testar coisas e de vez em quando ia ao site deles ver se havia vagas. O Pedro estava sempre a dizer-me: ‘Porque não te candidatas, porque não mandas o currículo?’”

Acabou por responder a um anúncio e pouco depois ofereceram-lhe um cargo. “O email falava de uma ‘onboard position’ e, quando me candidatei, não tinha percebido bem que era num barco. Comecei por ficar apreensiva mas, quanto mais pensava naquilo, mais achava espetacular.”

Quatro meses no mar, dois em casa


Embarcou pela primeira vez em setembro de 2017 — apesar de trabalhar para uma empresa americana, desta vez só precisava de um visto de trânsito porque estaria sempre no mar. O cargo que aceitou, e que desempenha atualmente, chama-se oficialmente host da “America’s Test Kitchen”. O que ela faz são espetáculos de culinária que duram cerca de 40 minutos, nos quais ensina duas ou três receitas do mesmo tema (por exemplo, no pequeno-almoço faz panquecas e uma omelete fofa, que recriou para a NiT). Todos têm um guião porque não podem existir tempos mortos. Carolina Gomes explica o que está a fazer mas também curiosidades sobre um alimento ou uma história.

Os contratos são geralmente de quatro meses, seguidos de dois meses de pausa. Carolina ganha 5600 dólares (cerca de 4900€) por mês mas não recebe quando está em casa. Contudo, essas semanas não são propriamente para descansar. Ensaia os espetáculos que vai fazer no contrato seguinte, grava tudo e envia para um supervisor nos Estados Unidos. “Não é para ser controlada mas para corrigir pequenas coisas. Nada pode falhar, a marca chega a repetir as mesmas coisas 50 vezes.”

Entre as dezenas de estudos de ingredientes que a “America’s Test Kitchen” faz, há um que Carolina costuma explicar nas suas apresentações. “Pegaram num queijo parmesão e quiseram perceber se era melhor no meio ou junto à casca. Contaram os cristais nas duas zonas e mandaram para laboratório. Chegaram à conclusão de que há mais junto à casca, logo essa será a parte melhor do queijo.”

Na empresa há 50 pessoas cuja única função é testar receitas e cerca de 20 que são hosts em barcos, como Carolina. A frota da Holland America (linha de cruzeiros que tem a parceria com a “America’s Test Kitchen”) tem 14 navios.

O mais recente onde Carolina trabalhou tinha dez pisos, à volta de dois mil passageiros e uma tripulação de 800 a 900 pessoas. Fez viagens ao longo das Caraíbas (os passageiros costumam ficar uma ou duas semanas) e o desembarque aconteceu a 22 de dezembro.

A função da portuguesa equivale ao estatuto de um oficial e dá-lhe direito a um camarote individual com casa de banho. As refeições são feitas no buffet dos passageiros mas é obrigatório andar sempre de farda e nenhum funcionário pode mexer no telemóvel na zona dos hóspedes. De qualquer forma, muitas vezes a rede é quase inexistente.

“Costumamos dizer que onde está a tripulação toda junta é sinal de que há boa Internet.”

Estar longe do marido e da família é o maior sacrifício mas “é para a realização pessoal, queremos que o outro seja feliz”.

Meia hora antes, Carolina testa tudo.

No mar não há muito tempo para pensar nas saudades e isso é uma vantagem. Há dois espetáculos por dia, cada um num auditório onde cabem 200 pessoas. Nos momentos em que o barco está atracado, não há sessões mas isso pode mudar rapidamente caso esteja mau tempo e seja necessário continuar a navegar. Além disso, há sempre workshops organizados para grupos mais pequenos, coisas para estudar ou trabalho administrativo.

Carolina Gomes gosta de estar pronta pelo menos meia hora antes da apresentação. Dispõe os utensílios em cima da bancada, separa as quantidades dos ingredientes que vai usar, coloca a jaleca e testa o microfone. Contudo, nem sempre as coisas correm como está previsto.

“Já tive de dizer: ‘Vamos imaginar que isto é um limão’ e não tenho limão nenhum na mão.” Isto pode acontecer porque o barco não atracou para reabastecer ou porque faltam alimentos de repente e não há onde ir comprá-los.

“Outra vez cheguei ao frigorífico e não estava lá nada. O chef nunca mais se lembrou que ia haver show e não tinha preparado as coisas da minha lista. Ninguém sabia dele e, num navio tão grande, não é assim tão fácil encontrar alguém”, recorda.

Há apenas um host por barco. Se essa pessoa adoece, cancela-se o espetáculo; se tem uma gastroenterite, fica em isolamento; se morre alguém da família, tem duas semanas para ir a casa e é substituído por um colega assim que o barco chega a terra.

O maior pânico de Carolina é enganar-se nas horas, isto porque estão sempre a mudar de fuso horário. No entanto, nunca teve tanto medo como no dia em que houve um incêndio a bordo.

“Estamos sempre a fazer simulacros mas, quando é a sério, é muito fácil entrarmos em pânico. Eram 21 horas, tinha acabado de chegar à minha cabine quando tocou o alarme. O incêndio era na zona do lixo e acabou por se resolver depressa mas eu só pensava: ‘Estamos no meio do nada, nunca mais nos encontram aqui.’”

Cada show tem um tema com três receitas.

Os passageiros são reformados na grande maioria. Primeiro, têm mais disponibilidade; segundo, andar a passear de barco é mais agradável e fica mais barato para alguns do que arrendar uma casa ou pagar a mensalidade de um lar. Nos Estados Unidos, o programa “America’s Test Kitchen” é tão popular quanto o “MasterChef” e os fãs são fiéis a tudo o que a marca faz. “No final dos shows há muita gente que pede para tirar fotos comigo.”

Há também quem faça dos espetáculos rotina obrigatória. “Fiz um cruzeiro ao Havai que durou dez dias, cinco para cada lado. Em todos eles tinha a mesma pessoa sentada à minha frente, na mesma cadeira, com um bloco de notas para escrever todas as receitas.”

Ver a reação das pessoas ao vivo é “a parte mais divertida”, garante Carolina, mas falar durante 40 minutos sem parar é esgotante. “No final, preciso de estar 30 minutos sossegada para que haja uma quebra de adrenalina.”

A portuguesa adora o que faz mas tem noção de que se desviou da sua verdadeira paixão, a pastelaria. O plano é regressar a Portugal brevemente e as ideias são muitas: escrever um livro, ensinar, montar um projeto como o “America’s Test Kitchen”.

Quando era advogada ninguém ia ter comigo feliz, lidava com as chatices da vida. Na pastelaria vemos sorrisos, fazemos parte de momentos especiais. Tenho um retorno que nunca tinha tido antes. Gostava de ter um espaço onde pudesse divertir-me a fazer bolos”, revela.

Por isso, o próximo contrato nos cruzeiros da Holland America será, provavelmente, o último. No final de fevereiro vai embarcar em Tampa (Florida, EUA) e atravessar o Atlântico até Roterdão (Holanda).

Quando voltar a casa, vai ter à sua espera uma das coisas de que sente mais saudades quando está no mar: sopa de entulho, “daquelas com coisas a boiar”, o primeiro prato que come sempre que regressa a Portugal, seja a que horas for.

Texto Andreia Costa
Vídeo Bruno Vaz
Fonte: nit.pt

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