‘Pacto de sangue’ e ‘velha atropelada’: os pontos do livro ‘Menino Marrom’, de Ziraldo, suspenso em escolas de MG

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Via @portalg1 | O livro "O Menino Marrom", obra de Ziraldo publicada em 1986, conta a história de dois meninos, um negro – o menino marrom – e um branco – o menino cor-de-rosa – que juntos tentam compreender melhor as cores.

Na obra, Ziraldo se utiliza de diversas brincadeiras para falar sobre as cores e fazer a oposição entre o preto e o branco, tratando de questões como a amizade verdadeira, a diversidade étnica e a construção da personalidade. Os meninos, ao longo do livro, buscam entender "se o branco é o contrário do preto", enquanto o narrador debate questões como a inexistência de algo que poderia ser chamado de "cor de pele", entre outros temas.

Nas redes sociais, pais consideraram o conteúdo da obra "agressivo" e que induziria as crianças a "fazer maldade". Após as críticas, a Secretaria Municipal de Educação de Conselheiro Lafaiete, na Região Central de Minas Gerais, suspendeu atividades relacionadas ao livro.

➡️Os comentários apontam, principalmente, duas passagens do livro como sendo "agressivas":

• O desejo o menino marrom de que uma senhora fosse atropelada, após ela rejeitar sua ajuda para atravessar a rua;

• A ideia dos meninos de realizarem um pacto de sangue para selarem a amizade.

Além disso, os meninos também protagonizam uma discussão em certo ponto do livro, "que os deixou separados e de mal por um tempo enorme".

Segundo Zoara Failla, socióloga e coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, afirma que o pedido de suspensão reflete uma má interpretação da obra por parte dos pais.

"Ziraldo, ao trazer dilemas vividos por duas crianças, possibilita a reflexão, orientada por pais ou professores, sobre temas como diversidade racial, preconceito, amizade e o respeito às diferenças", analisa.

Abaixo, nesta reportagem, você entende um pouco mais sobre cada um dos trechos e suas possíveis interpretações.

'Eu quero ver ela ser atropelada'

Página de "O Menino Marrom" cujo conteúdo foi criticado por pais de Conselheiro Lafaiete — Foto: Reprodução/Melhoramentos

Em uma das passagens do livro criticadas pelos pais, o "menino marrom" – que não recebe um nome próprio – revela para o "menino cor-de-rosa" que gostaria que uma velhinha fosse atropelada.

Apesar do trecho poder parecer que induz à violência, é preciso analisar o contexto.

"É fundamental entender o contexto de uma obra. Como compreender os dilemas de um personagem se não identificarmos os costumes, valores e crenças que orientam seu comportamento?", questiona Zoara.

Pouco antes de fazer o comentário com o amigo, é relatado pelo narrador que o menino marrom passou a acordar cedo em algumas manhãs. Sozinho no meio da rua, viu uma velhinha atravessando a rua a caminho da missa das seis e, querendo fazer uma boa ação, corre para guiar a senhora.

A velhinha, entretanto, é ríspida com o menino, lhe dá um tapa na mão e atravessa a rua sozinha, deixando o menino desapontado e sem entender o que havia feito de errado.

Nas manhãs seguintes, então, ele, acompanhado do amigo, passa a sentar na calçada e observar a senhora fazer sempre o mesmo caminho sozinha. Só então revela ao menino cor-de-rosa seu desejo com relação à velhinha.

A fala é logo acompanhada de um questionamento do próprio narrador:

"Como pode durar esse jogo de deus e de diabo em peito de menino?"

'Temos que selar nosso pacto com sangue!'

Página do livro "O Menino Marrom" criticada por pais de Conselheiro Lafaiete: meninos pensam em fazer pacto de sangue, desistem de usar faca e até mesmo um alfinete e acabam selando amizade com tinta de caneta azul. — Foto: Reprodução/Melhoramentos

Outro trecho que gerou incômodo é o pacto de sangue que os meninos decidem fazer para selar a amizade.

Determinados a fazer um juramento que duraria para sempre, um deles vai até a cozinha pegar uma faca para "furar os pulsos e misturar o sangue dos amigos eternos".

Sem coragem para fazer nenhum corte, decidem então optar por um alfinete – alternativa que também não inspira confiança.

Incapazes de realizar qualquer ferimento, veem na tinta a solução: sem encontrar a tinta vermelha, que simularia o sangue, é com tinta azul que carimbam um papel e assinam seus nomes para firmar o pacto.

Ainda que a sugestão de um pacto de sangue possa causar certa preocupação, o desfecho acontece sem nenhum corte e com uma relação profunda com o enredo da obra – encontram nas cores uma forma de jurar amizade eterna.

"A atitude desses personagens mostrou que eles mesmo optaram por brincar com uma situação que criaram, um pacto de sangue de um menino branco e um menino negro", comenta Failla.

Compromisso com a educação

Sobre a suspensão do livro "O Menino Marrom", a Editora Melhoramentos, que detém os direitos de publicação, reforça que "tem como principal objetivo promover a cultura por meio da educação e entretenimento, gerando conteúdo para toda a família, especialmente o público infantojuvenil".

Em nota, a editora também reiterou que é reconhecida por sua criteriosa curadoria e avaliação de títulos, mantendo sempre seu legado.

"Ziraldo é um dos autores infantojuvenis de maior expressividade na cultura brasileira. Sua capacidade de equilibrar humor, sensibilidade e temas relevantes como diversidade e inclusão, o destacaram como um mestre na arte de contar histórias", afirmou a editora em nota.

Em nota publicada nas redes sociais, a prefeitura de Conselheiro Lafaiete disse que o livro de Ziraldo "é um recurso valioso na educação, pois promove discussões importantes sobre respeito às diferenças e igualdade" e "aborda de forma sensível e poética temas como diversidade racial, preconceito e amizade".

No entanto, "diante das diversas manifestações e divergência de opiniões", a Secretaria Municipal de Educação solicitou a suspensão temporária dos trabalhos realizados sobre a obra, "a fim de melhor readequação da abordagem pedagógica, evitando assim interpretações equivocadas".

Para a socióloga Zoara Failla, a decisão reflete a dificuldade de interpretação do texto e a incapacidade de perceber a riqueza da obra.

"A leitura dos pais foi equivocada certamente por terem limitações de compreensão da linguagem e da criação da ficção e da arte. Não conseguiram perceber o potencial que essa obra tem de provocar uma leitura crítica e promover o diálogo", lamenta a socióloga.

Por Júlia Carvalho
Fonte: g1

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