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Delegada presa em Goiânia acusa família de forjar laudo para provar que ela tem transtorno

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Via @maisgoias | A delegada aposentada da Polícia Civil de Goiás que foi presa em janeiro depois de furtar itens do supermercado de um condomínio em Goiânia, Adriana de Carvalho Moraes, afirma que um laudo psiquiátrico foi produzido em condições ilegais, por um médico que ela não sabe quem contratou, para provar que ela tem transtorno. O objetivo das pessoas que estão por trás desse laudo, segundo Adriana, é o de assumir a gestão do patrimônio dela.

A delegada foi detida no dia 29 de janeiro de 2026 e levada para um anexo da Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH). Ela relata que, por volta das 20h, um médico entrou no alojamento sem que ela autorizasse e disse que queria ter apenas uma “conversa informal”. “Não tinha papel, caneta, nada para gravar. Se eu estava passando por uma consulta médica eu teria que saber. Não sou curatelada, sou independente estou convicta de que esse médico foi contratado pela minha família, interessada em me calar”, diz Adriana.

Itens furtados pela delegada no dia 29 de janeiro de 2026 (Foto: Reprodução)

Dessa conversa saiu um relatório, digitalmente assinado poucas horas depois (0h06), que, nas palavras do psiquiatra Matheus Rassi, visa “descrever de forma minuciosa o estado de saúde mental atual da paciente em questão”. Segundo o documento, “a paciente apresenta-se em estado psicótico ativo, com sofrimento psíquico intenso e persistente. Observa-se desorganização comportamental grave, caracterizada por dificuldade significativa em manter condutas orientadas por objetivos, incapacidade de planejar ações básicas do cotidiano e comprometimento evidente da adaptação social”.

A advogada Rubyneia Tomé, que defende Adriana, contesta a legalidade do diagnóstico. “Foi um relatório feito em uma única consulta, num ambiente hostil e sob estresse agudo. Causa estranhamento o fato de que o médico teve a ambição de discorrer sobre a ‘evolução’ da paciente, porque para isso ele teria que ter tido acesso a todo o histórico da delegada – o que não aconteceu”.

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“A elaboração de relatório médico pressupõe a existência de relação médico-paciente regular, fundada em consentimento livre e esclarecido, reforça a advogada. “A declaração unilaterial da família não substitui a autorização judicial, não afasta a necessidade de consentimento da paciente e não legitima a realização da consulta sem ciência da investigada”.

Incidente de insanidade mental

Rubyneia e Adriana acreditam que esse laudo será usado para provar que Adriana tem transtornos mentais – o que traria consequências jurídicas graves para a delegada. Entre elas, a nomeação de um curador, a submissão a perícia compulsória e até a aplicação de medida de segurança. Ou seja: perde-se a autonomia.

Delegada Adriana ao lado da notícia da prisão dela (Foto: Mais Goiás)

Há 15 dias, ambas foram informadas de que o Ministério Público pediu a abertura de um incidente de insanidade mental dentro do processo que trata do furto no condomínio fechado. Foi aberto prazo para manifestação da defesa, que vence nesta quarta-feira (25), e depois disso a Justiça vai decidir se a investigação será aberta. Caso seja, a defesa poderá inclusive chamar médicos que historicamente atenderam Adriana para que deem outros pontos de vista.

“De 2023 até os dias atuais, fui alvo de seis tentativas de internações psiquiátricas compulsórias. Uma delas gerou medida judicial liminar, concedida através de apropriação indevida de uma única consulta feita com médica psiquiatra indicada pelo núcleo de assistência à saúde da Polícia Civil em novembro de 2023”, diz Adriana.

“Nesse processo judicial de 2023, minha mãe afirmou que eu já passava por tratamento psiquiátrico havia um ano, ou seja, desde 2022, correlacionando esse tratamento ao óbito da minha filha. Peço aqui que minha mãe e irmãs se manifestem e comprovem com prontuários médicos esse tratamento de 2022 a 2023 e deem sua versão para justificar tantos pedidos de internações com relatórios forjados, consultas camufladas, com médico que nunca me viu na vida. Se meu quadro psiquiátrico é tão grave e minha família só quer me proteger, por que não há nenhum pedido de internação com relatório do médico que me acompanha desde 2024?”, questiona a delegada.

Delegada Adriana Fernandes antes da aposentadoria (Foto: Reprodução/TV Serra Dourada)

Para ter certeza de quem contratou o psiquiatra que visitou Adriana no alojamento da DIH quando ela estava presa, a advogada enviou e-mail ao Sindicato dos Delegados da Polícia Civil (Sindepol) com pedido de esclarecimentos, mas ainda não recebeu resposta. Por ora, elas têm convicção de que foi algo armado pela família. Também foi feita uma denúncia contra Matheus Rassi ao Conselho Regional de Medicina (Cremego).

Como o relatório do médico já integra o processo criminal, a defesa pedirá o afastamento desse documento dos autos, por entender que é prova ilícita. “Já que o médico relatou surto psicótico, fica a pergunta: por que ele não me encaminhou para uma unidade de saúde imediatamente? Porque um surto psicótico requer atendimento adequado e imediato e, até mesmo internação. O intuito dele foi produzir um relatório às escondidas e não visando a minha proteção e bem estar, conforme ele fez parecer que era. O relatório dele serviu de base para minha família assinar novamente pedido de interdição e internação”, questiona Adriana.

“O citado laudo foi utilizado em dois pedidos de interdição e internação, nos dias em que eu ainda estava detida. Os dois pedidos de liminar para isso foram negados pelo Poder Judiciário. Minha fiança não foi paga logo após a audiência de custódia pelo advogado enviado pelo sindicato porque queriam me segurar na DIH até que a internação saísse. Meu ex-marido inclusive descobriu que o valor que ele repassou ao advogado para pagamento da fiança não foi feito e, só no domingo (1º/02) foi que ele pagou a fiança via boleto. Estamos diante de condutas interligadas entre minha família e a Polícia Civil ou não?”, complementa.

Por Alexandre Bittencourt
Fonte: maisgoias.com.br

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