O flagrante ocorreu em uma praça pública da capital. O suspeito transportava o material em uma mochila e foi surpreendido no momento exato em que realizava uma transação com um usuário, que também acabou conduzido ao distrito policial.
O volume de drogas apreendido mobilizou os agentes em um procedimento que durou quase 10 horas na delegacia no dia 30 de setembro deste ano. No total, a polícia contabilizou e apreendeu porções de maconha de diferentes qualidades, cocaína, a droga sintética K9 e 1.669 pinos de crack, além de dinheiro em espécie e aparelhos celulares.
Ao ser interrogado, o suspeito confessou a traficância, admitindo que atuava na guarda e distribuição do material ilícito. Diante da expressiva quantidade e da confissão, a Polícia Civil formalizou a representação pela prisão preventiva para a garantia da ordem pública e interrupção imediata da atividade criminosa.
O "voto de confiança" na custódia
Apesar do pedido da autoridade policial e da gravidade da apreensão, o juiz responsável pelo plantão de custódia, Tobias Guimarães Ferreira, negou a conversão do flagrante em preventiva e determinou a soltura do suspeito no dia 1º de outubro.
Na ata da decisão, o magistrado considerou a primariedade do acusado e justificou a liberdade provisória com a fixação de medidas cautelares alternativas à prisão:
"De toda forma, trata-se de voto de confiança conferido pelo Poder Judiciário, esperando que, com a oportunidade conferida de responder ao processo em liberdade, sejam cumpridas as cautelares impostas, com a manutenção da vinculação ao processo...", registrou o juiz.
Entre as cautelares fixadas para que o acusado continue solto estão a obrigação de manter o endereço residencial atualizado perante a vara judicial e a determinação formal de se afastar da prática de novas condutas criminosas.
Delegado desabafa: "Que voto de confiança é esse?"
A decisão causou profunda indignação na equipe responsável pelo flagrante. Em vídeo publicado em suas redes sociais pessoais, o delegado de polícia Leandro Nogueira Carvalho (@leandronogueiracarvalho) ressaltou que não falava institucionalmente, mas expressou revolta com a soltura imediata após todo o risco enfrentado pelas forças de segurança:
"Não se trata de uma pequena apreensão, é uma apreensão gigante. E para tanto, para que ele não seja preso preventivamente, o Judiciário disse que ele deveria cumprir algumas coisas, quais seriam? Se afastar do crime e manter o endereço atualizado, por incrível que pareça. Quem é que consegue ver se esse cara se afastou do crime? O momento certo de afastar da sociedade pelo que ele fez é a prisão preventiva, é o afastamento cautelar. É inacreditável", desabafou o delegado.
O policial, que já atuou no policiamento de rua, relembrou os perigos enfrentados pela tropa em incursões em áreas dominadas pelo crime e questionou os critérios da benevolência judicial:
"Será que vale a pena arriscar sua integridade física, arriscar o seu emprego muitas das vezes para que não seja dada essa resposta, um voto de confiança? Voto de confiança esse que muitas das vezes não é dado ao policial. Quando em depoimento ele diz o que aconteceu e todo mundo duvida (...). Então que voto de confiança é esse? A quem se deve dar o voto de confiança? À sociedade, ao policial ou ao indivíduo que é pego com 2 mil porções?", questionou.
Ao final, Carvalho chamou a atenção para o vínculo do volume apreendido com o crime organizado em São Paulo:
"A pergunta que fica é: a quem interessa a benevolência com indivíduos que praticam esse tipo de crime? Sobretudo por estarmos aqui num estado da federação que tem a maior organização criminosa do país, quiçá da América Latina, que se sabe que para que o indivíduo consiga traficar uma quantidade dessa de drogas, ele tem que ter minimamente ali uma autorização ou fazer parte da organização."
Por Gabriel Dinis
Fonte: bnews.com.br
