Segurança 24 horas: como é a rotina do juiz ameaçado de morte por facção criminosa

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goo.gl/V9Sr3u | É terça-feira à noite, e o juiz Felipe Keunecke de Oliveira, 55 anos, atende calmamente ao telefone. Questionado se está ocupado ou pode falar, responde bem-humorado:

— Estou em casa, em regime fechado.

Ao citar o regime de prisão fechado faz analogia à situação que está vivenciando nos últimos meses: a de proteger a si e a familiares de um possível ataque planejado pela facção Bala na Cara. Keunecke só sai de casa, em Porto Alegre, para trabalhar. Ele e a família usam carros blindados e são acompanhados por seguranças 24 horas.

— Parou tudo na minha vida. Não vou a restaurantes, à academia, engordei quatro quilos, não vou aos jogos do Grêmio. Sorte que existe o pay-per-view, assisto até à Segunda Divisão — conta.

A frequência do juiz conhecido como “gremista” nos jogos do time do coração, na Arena, foi uma das informações apuradas pelos criminosos ao planejar o ataque. Teria partido de um dos advogados que atuam em processos da facção, Anderson Figueira da Roza, a dica de local para executar o plano.

A informação está registrada em troca de mensagens de texto que consta da investigação. O interlocutor de Roza seria o traficante José Dalvani Nunes Rodrigues, o Minhoca:

– Jogo do Grêmio, ele vai.

Minhoca conclui não ser boa opção:

– Ms no jgo mira jenti (Mas no jogo tem muita gente).

Com 24 anos de magistratura, Keunecke é conhecido como juiz linha-dura, que emite sentenças pesadas. Antes de ingressar na Justiça, foi advogado, atuando em mais de 130 júris. Hoje, reúne o maior número de processos criminais envolvendo Minhoca e comparsas.

Diz que sempre teve relação amistosa com os advogados do grupo. Acostumado a lidar com criminosos no dia a dia, disse que sempre ouviu muita boataria sobre desejarem sua morte.

— Volta e meia alguém fala, ameaça – diz.

Mas, há alguns meses, o assunto pareceu mais sério. Depois de alertas da Polícia Civil e do Ministério Público, desengavetou o revólver calibre 38 que comprou quando se tornou juiz. Há três meses, fez curso de tiro na Polícia Federal (PF). Há 15 dias, por conta do andamento de um dos processos de Minhoca, o risco se acentuou, e teve início a estratégia de segurança para o juiz e a família.

— Quando o diálogo com o plano foi captado, tinha dois, três processos do Minhoca. Hoje, são 68. É outra realidade – admite.

Keunecke convive com testemunhas apavoradas e ameaçadas. Gente que costuma receber munição embalada em papel de bala como aviso antes de depor ou que, simplesmente, desaparece durante o processo.

— Calculamos mais de 120 pessoas mortas por esse grupo, nessa guerra do tráfico. E muita gente inocente – analisa o magistrado.

Os seguranças do juiz carregam fotos de suspeitos. Semana passada, um advogado colega de Roza tentou conversar com Keunecke no fórum. Foi abordado e afastado.

— Se recuamos, eles vêm. É preciso olhar bem nos olhos, mostrar que o Estado está do nosso lado, com firmeza, aí eles pensam.

Mas agora Keunecke deve se afastar da área criminal. Pediu remoção e vai largar os processos da quadrilha. Planeja, talvez, tirar férias prolongadas com a mulher.

Ouça a entrevista com o juiz no Gaúcha Atualidade

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br

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