“A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora agora. E, se tiver alguma medida, eu tomarei; voltarei aqui com a medida administrativa”, disse o tenente, ao discutir com a diretora naquele dia.
A fala, feita pelo tenente Ronald Camacho, foi registrada pela câmera corporal de um dos agentes envolvidos na ocorrência. A reportagem teve acesso às imagens das bodycams em primeira mão. As cenas mostram momentos de tensão, com o policial repetindo os argumentos do pai da criança, e, mais tarde, dizendo não haver crime na atuação da escola.
O caso envolvendo o desenho da orixá foi revelado pelo Metrópoles e gerou repercussão nacional. Como mostrou a reportagem à época, no dia 12 de novembro do ano passado, o pai de uma estudante chamou a Polícia Militar após discordar da atividade feita pela filha, de 4 anos.
O homem, que também é policial, disse aos agentes que sua filha estaria sendo obrigada a ter aula de uma religião diferente da sua. Os policiais entraram na escola de educação infantil portando armas de grosso calibre, o que assustou crianças, segundo relatos colhidos pelo Metrópoles.
As gravações das câmeras corporais registraram a dinâmica da ocorrência.
O que mostram as cenas
As imagens mostram que o pai da aluna apresenta o desenho feito pela filha aos agentes, assim que eles chegam à escola. O homem diz que pediu à diretora para que a menina fosse “privada dessas aulas que envolvem religião”. A educadora, no entanto, teria se negado a retirar a criança das atividades, segundo ele.
Na sequência, os policiais entram na Emei para falar com a diretora. A educadora demonstra surpresa quando o tenente Ronald diz que eles foram chamados pelo pai da aluna.
“Vocês vieram porque o pai solicitou? Pensei que vocês tinham vindo porque a gente tinha solicitado. A gente solicitou [apoio policial] por causa desse pai”, diz a diretora. Em depoimento à Polícia Civil mais tarde, ela contaria que havia pedido ajuda da Guarda Civil Municipal (GCM) após o pai se exaltar com a equipe no dia anterior.
As bodycams mostram a diretora explicando aos PMs que a escola tem um projeto baseado na lei federal 10.639, que determina o ensino da história e cultura afro-brasileira para estudantes. Ela afirma que o pai da aluna, de religião cristã, não gostou da temática.
“Ele veio ontem de maneira agressiva aqui na escola. Coagiu a professora, gritou com ela, apontou o dedo no rosto dela e arrancou o desenho da criança”, relatou a educadora.
A diretora, então, é interrompida pelo tenente, que cita outra lei federal, a 13.796, de 2019. A legislação diz que o ensino religioso deve ser facultativo.
Uma inspetora reage à fala do policial com um sinal negativo, e o agente repreende a mulher: “É lei federal.” As funcionárias dizem que a escola não ensina religião. “Como não? Eu vi um desenho escrito Iansã. É uma entidade da cultura afro”, diz o policial.
A conversa ganha um clima tenso com o tenente insistindo na versão apresentada pelo pai. “O senhor viu um recorte de um desenho, que ele pegou. É uma literatura”, afirma a diretora, que tenta explicar a atividade que deu origem ao desenho, baseada no livro “Ciranda em Aruanda”.
“Isso que a senhora está falando que ‘é cultura’, e tal… Não [é], estamos falando de uma religião”, diz o tenente.
A diretora convida os policiais e o pai da aluna para participarem de uma reunião do conselho escolar, onde o tema seria discutido. Os PMs recusam o convite, e a tensão aumenta quando Ronald diz que aquela era “uma ocorrência”.
A educadora questiona, então, o que deve ser feito e diz que a situação promovida pelo pai “é uma coação para a escola”. Um policial afirma que era “direito do pai” e é expulso dali pelo tenente, enquanto a diretora pergunta se os agentes são advogados do pai.
Neste momento, o tenente diz que a diretora está nervosa e que não quer ouvi-lo, e deixa o corredor da escola afirmando que ela quis “ditar sua ideologia”.
Depois da discussão, os agentes deixam a parte interna da escola e começam a elaborar um boletim de ocorrência da PM sobre o caso com a versão do pai. Minutos depois, eles entram novamente, em busca da versão da diretora.
Nesse momento, a diretora aparece ao telefone com a supervisora de ensino da Diretoria Regional de Ensino do Butantã. Ela coloca o aparelho no viva-voz e a mulher passa a falar com o tenente, enquanto vários pais e funcionários da escola acompanham a cena.
O policial diz que o pai afirmou ser alvo de intolerância religiosa. “Intolerância religiosa ou discordância religiosa?”, questiona a supervisora, explicando que ele discordou de um conteúdo pedagógico.
Após ouvir a diretora, o tenente diz que é “neutro” na situação e só está ali para aplicar a lei. “Por isso que eu ‘reentrei’ na escola, para entender com a diretora. Eu tenho que ver a duas partes. Se a gente só ouve uma, parece que o pai é um criminoso. Se só ouço o pai, parece que a diretora é criminosa. E eu não vejo nenhum criminoso aqui. Não existe isso. Para mim, não existe aqui isso; é ‘lide’, confusão de ideias”, diz ele.
Durante a conversa, a diretora, que segurava o celular, passa o aparelho para outra pessoa e sai da cena. Uma funcionária diz que ela está passando mal.
O diálogo entre o tenente e a supervisora de ensino é encerrado, e os funcionários e pais começam a falar com o policial. O agente diz para uma professora que não vê crime na situação, mas que é direito do pai chamar a Polícia e acionar a Justiça.
O que era a atividade
• A atividade que culminou no desenho estava ligada à leitura do livro infantil “Ciranda em Aruanda”, da autora Liu Olivina;
• Na obra, a autora traz ilustrações de 10 orixás e apresenta, em textos curtos, as características das divindades – Oxóssi, por exemplo, é retratado como “o grande guardião da floresta”;
• Uma professora da Emei leu a história para os alunos. Em seguida, cada estudante fez um desenho a partir da leitura;
• A menina, de 4 anos, desenhou Iansã, orixá ligada aos ventos e às tempestades;
• Os desenhos foram expostos no mural da escola;
• O livro tem o selo Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e faz parte do acervo oficial da rede municipal de ensino;
• Após saber do caso, a autora Liu Olivina lamentou o episódio.
Do lado de fora, alguns agentes debatem entre si sobre o caso. “Pergunta que não quer calar: quem é Iansã, que eu nem sei quem é?”, diz o policial Rafael. Outro agente diz que é uma entidade, e confunde a orixá com Iemanjá.
Minutos depois, o policial Rafael diz que não tem religião, mas acha que o pai está certo. “Como você obriga minha filha a fazer um desenho de uma entidade de uma religião que a gente é contra? É como também, se você, não sei, na ‘macumba’ (sic), obrigar os caras a fazer um desenho de São Pedro”, diz.
Especialistas em educação antirracista explicam, no entanto, que o contato com o tema dos orixás na escola não está ligado a uma imposição de crenças, mas sim ao estudo da cultura e da espiritualidade de povos originários da África, como acontece, por exemplo, com as mitologias da Grécia.
“Isso é distinto de ensino religioso, que, por sua vez, tenta converter, doutrinar ou catequizar uma fé institucional específica”, explicou a pedagoga Kiusam Oliveira, em entrevista ao Metrópoles em novembro de 2025.
Na escola, as crianças também aprendem que os gregos cultuavam deuses como Zeus e Poseidon – que se assemelham às orixás Iansã e Iemanjá pela associação com raios e com a água do mar, respectivamente.
A pedagoga diz que as mitologias ocidentais acabaram incorporadas ao sistema educativo como “cultura universal”. Por outro lado, quando narrativas africanas entram em cena, muitas vezes são vistas como “religiosidade”, “superstição” — ou mesmo como “inapropriadas” ao ambiente escolar.
“Isso revela outra face perversa do racismo: culturas de matriz africana continuam sendo marginalizadas, invisibilizadas ou tratadas com suspeitas”, diz ela.
Depois que o caso da Emei Antônio Bento veio à tona, a Polícia Civil indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa. Já a Polícia Militar abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar a postura dos policiais envolvidos no caso.
O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) se a investigação sobre os agentes continua aberta, mas não teve retorno até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Por Jessica Bernardo, Alfredo Henrique
Fonte: metropoles.com
